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sexta-feira, 12 de julho de 2013

Superficialidade das abordagens midiáticas: prazer e prostituição



Lola Benvenutti é o nome de guerra de uma moça bonita do interior, de 21 anos, recém-formada em Letras por uma universidade pública, que virou notícia após revelar que entrou no universo da prostituição por puro prazer e está aproveitando a oportunidade para a promoção desta atividade financeira. Ela alimenta um blog, já está sendo absorvida pelo raso buraco das celebridades produzidas “por babados”, e têm disponíveis algumas entrevistas na net, caso deseje. Qualquer menção promove e, embora não seja este o intuito, me parece inevitável.

Prostituta vinda de família tradicional do interior, se assumindo publicamente sem o menor problema, apesar do preconceito social predominante, creio que seja um choque na rigidez de qualquer criação militar. Coragem? Vamos por partes.

Acho engraçado que ela tenha surgido, assim, no frescor das tramas da novela da rede Globo, que mandavam suas deslumbrantes celebridades sofrerem como garotas de programa bem lá longe, na Turquia.

Mergulhando um pouco mais pra longe do superficial, “Nome de guerra” é uma identidade que as prostitutas adotam, geralmente, para preservar sua autoimagem de uma relação estritamente comercial, para retirar o Eu das suas práticas, entrar em sua personagem que vai literalmente para um combate e preservar uma parcela de anonimato. Creio eu que este combate deve ser travado contra vários aspectos, dentre eles: contra todas as possíveis ameaças, das mais variadas naturezas, que possam estar contidas na figura de um novo cliente desconhecido; contra os estímulos que o seu corpo receberá por meio dos seus órgãos dos sentidos (tato, paladar, olfato, audição) e que não sabe se serão processados em seu cérebro como prazerosos, dolorosos ou repugnantes... Imagino que seja necessário realmente criar uma ou várias outras identidades, não só por causa da vida em sociedade, mas porque algumas práticas devem exigir um alterego. Lola não é o nome verdadeiro dela. Sendo assim, não existe coerência entre seu discurso aparentemente forte e convicto, e a confecção de um disfarce de identidade, ela como estudante de Letras talvez pudesse ter sacado isso...

Li o blog de Lola até onde aguentei, por considerar sua abordagem cansativa, sem estética e sem ritmo. Qualidade literária que dizem ter? Nota zero. Parece um jogral (em duas concepções) escrito em lírica medieval (dá pra entender?), contando sistematicamente alguns de seus atendimentos.

Creio que realmente ela extraia alguns tipos de prazeres da profissão que faz questão de exibir, sem dúvida, tanto financeiros quanto egoicos, e ocasionalmente físicos. Acho que dentro do que se propôs a fazer, tem um bom marketing. Não será a primeira, nem a última, nem Joana D´Arc e nem um bicho de sete cabeças... Mas a coisa é que a exaltação infiltrada em seus discursos me parece muito relativa e não absoluta, como quer fazer parecer. A menina Lola fala como se tivesse o homem que bem entendesse dentro de suas preferências, pagando pra ficar com ela, como se tudo fosse uma linda história erótica de contos de fadas. 

Em uma de suas entrevistas, passou despercebido pela maioria um detalhe sórdido que reproduzo aqui tendo lido no site do G1:

"O interesse precoce por sexo começou com uma vontade íntima de deixar de ser virgem, o que considerava ser um ‘fardo’. “Desde os 11 anos queria me livrar desse fardo, mas perdi a virgindade com 13 anos e a primeira vez foi péssima, com um homem de 30 anos que conheci pela internet”, relembrou."

A preocupação dela aos 11 anos era perder a virgindade, enquanto a preocupação da maioria das crianças dessa idade provavelmente é de como curar um joelho ralado. Quais serão os estímulos para que sua atenção se voltasse para o sexo, o erotismo, para este tipo de informação? Será que cabe no universo infantil saudável um assunto que traz tantos, mas tantos pormenores, difíceis de conduzir até mesmo para os adultos? A curiosidade natural e fase fálica teriam sofrido alguma interferência suficientemente forte demais? Será que aos 13, teria ela aparelhagem para avaliar uma relação com alguém de 30 anos? Pois é parte de  outra realidade e estrutura corporal (anatômica), mental, e até mesmo existe a competência civil na seara dos Direitos. A legislação prevê alguém desta idade como pessoa relativamente incapaz para o ato civil, e não apenas por acaso, nem por mera convenção, mas porque pressupõe-se a falta de critérios ou experiências para as demandas mais complexas de estados de deveres e direitos como cidadãos. O ECA considera um ser humano como criança até os 12 anos e adolescente até os 18. Creio que estes dispositivos foram criados com base em uma série de questões biológicas, psicológicas, etc. 

Lola, goste ou não, saiba ou não, tenha consentido ou não, tenha sido seduzida ou não, talvez seja vítima da própria vulnerabilidade, pois sofreu sim uma violação. É sabido que a fase fálica de uma criança não precisa nem deve ser reprimida ou estimulada: canalizar a energia para práticas que serão benéficas a sua integridade total é uma boa pedida. É perceptível a diferença morfológica de uma pessoa adulta para uma criança, a diferença anatômica da etapa de desenvolvimento. O rapaz de 30 anos cometeu contra ela um crime, além do que eu o considero pedófilo.

Ficou impresso no discurso a convicção de que ela deteve/detém completo controle sobre todas as situações. A moça expõe sua necessidade de ser precoce, de estar à frente do seu tempo, de receber aprovação, quando na verdade é uma criança amordaçada. E o povo todo acha que ela faz apenas por prazer... Se ela tem coragem? De fato, sem dúvida.

Toda essa reação espalhafatosa não é incomum, pode caracterizar um dos vários processos desencadeados muitas vezes por vítimas de abuso sexual, é ter o direito de maltratar a própria condição feminina, já que alguém já fez isso sem considerar seu lado humano. Algumas pessoas se anulam completamente e outras ficam obcecadas. Seria isso saudável?

Vejam bem, não estou condenando o fato de ela obter prazer, nem estou julgando-a, nem sendo moralista com relação ao sexo. Embora eu ache que a prática perpetua a objetização da mulher na sociedade, assim como a mídia faz, a religião, e outros poderes, não sou hipócrita de negar que estas mulheres permeiam as fantasias masculinas e só existem porque existem muitos adeptos que gostam, e gostam muito.

Lamento por este “pequeno detalhe”, já que o mote do sucesso das abordagens é “fazer por prazer”, não ter sido observado ainda por nenhuma mídia. Concluo que a curiosidade infantil é inata, que somos seres também feitos para a experiência sexual, mas alguém usar isso para corromper um menor que não tem aparelhagem para saber o que envolve uma relação sexual, que sequer tem conhecimento sobre o próprio corpo, é demais. Como disse anteriormente: ela tem tantas aventuras deliciosas mesmo? Será que não é reflexo de certa vulnerabilidade e tem consciência do que diz? 

Não tem medo ou nojo de comportamentos, secreções, doenças? Afinal, ela presta um serviço. Para a mídia esta é minha crítica. Quando ela fala da carreira, embora ela não precise de dinheiro, eu penso que o exercício da profissão de professor realmente deveria ser mais reconhecido. Receber bem para transar talvez soe mais atraente mesmo do que pagar para lecionar. Muitos professores que conheço estão ali firmes e fortes tentando sustentar o ideal de um coletivo e mudar a realidade, ao invés de marginalizarem suas práticas. Isso pra mim é coragem genuína.

Acerca das opiniões populares, vejo-a como um pedaço de carne fresca sendo jogado num rio de piranhas...

[Foto: Júlia Roberts como Vivian Ward, no filme "Uma linda mulher". Abordagens um tanto contrastantes]

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Criminalidade versus Religião


                                     

O Brasil atingiu, até o meio do ano passado, uma população carcerária de 550 mil seres humanos, segundo a Presidência da CNJ. O Ministério da Justiça não revelou como se formata religiosamente a atual massa encarcerada, embora pesquisas localizadas (datadas de 2005 e 2007) tragam dados reveladores: o ranking em duas importantes unidades federais é liderado por detentos católicos (57,3% e 53,15%), seguidos pelos evangélicos (17,65% e 27,19%). 


A última pesquisa sócio-criminal realizada na antiga FEBEM é datada de maio de 2006, traz os números da autoclassificação religiosa dos menores infratores: 35% dos internos são católicos, 32% de orientação evangélica pentecostal, 24% não seguem uma religião, 4% são de evangélicos não pentecostais, 1% são mórmons, adventistas, testemunhas de Jeová; 2% vêm de religiões afro-brasileiras e umbanda, 1% se dizem espíritas. Surpreendendo todas as convicções religiosas, apenas 0,4% se declararam ateus.

Somos o segundo país mais religioso da América Latina, e o nono país no ranking mundial, perdendo apenas para o Peru que possui 86% de crentes. Se cruzarmos os indicadores extraídos da criminalidade com o troféu que ganhamos no quesito fé, realmente percebemos que há algo estranho acontecendo em um solo que tão aparentemente “abençoado”. A religião cresce, se moderniza, abocanha melhores condições para se desenvolver, recebe privilégios fiscais, preferência nas questões educacionais, é tratada como ilustre em eventos governamentais, agentes religiosos não precisam sequer passar por revistas nos presídios, autoridades religiosas e simpatizantes (como o famoso Datena) são agraciadas com concessão pública para propagar sua preferência moral em grande escala dominando a TV e, no entanto, a violência e o número de criminosos nos presídios aumenta grosseiramente revelando, o colapso social. Repetindo: 550 mil detentos no Brasil. Apesar destes dados, a religiosidade ainda é um aspecto que, na prática, diminui suspeitas, mesmo que a história registre tantos crimes em nome dela.

Embora não apareçam quando convém, no cenário nacional também estão os ateus, e pelo que se pode constatar, estão muito mais presentes como alvos dos discursos fundamentalistas de ódio ou em mascaradas incitações preconceituosas. Até mesmo nas pesquisas há discriminação, pois os ateus não são identificados corretamente: pessoas sem religião não são necessariamente ateias.

É comum vermos atribuída uma autoridade ilegítima aos representantes da fé, e muitas vezes, principalmente nas atividades políticas, estas práticas se sobrepõem à nossa Constituição Federal. Dentro dos presídios, a fé regula muitas relações e até preserva grupos de assédios e ameaças. Membros da Pastoral Carcerária já reconhecem que dentro dos presídios há uma rigidez moral que divide os presos em grupos, sendo que as facções costumam respeitar a vinculação da fé, até imunizando os evangélicos.

Estabelecer relações entre a descrença em Deus com falta de moral se configura crime a partir do momento em que sejam feridas a honra e a identidade das pessoas, colocada em risco a integridade de um coletivo por meio do  cultivo à intolerância. E os problemas dos ateus como cidadãos hoje vão muito além do que se pensa. Na tríade escola, trabalho e família, é urgente que a disseminação do ateísmo não nos isole do pleno usufruto dos direitos de pessoa. Nas Convenções do Trabalho da Organização Internacional do Trabalho (OIT), por exemplo, também é vedada a discriminação em matéria de emprego e profissão, no entanto, existem muitos relatos da religiosidade como critério para aceitação no mercado profissional. Por vezes, a religião é condição para o acesso de uma pessoa à atividade que regule não apenas a economia, mas a própria condição humana no quesito sobrevivência. Em resumo, no Brasil, ao menos por enquanto, ninguém deveria ser obrigado a rezar seja lá que autoridade estiver constrangendo alguém, e nenhuma igreja deveria oprimir seus vizinhos contra a lei do silêncio, por exemplo.

O ateísmo jamais deve ser justificativa para quaisquer tipos de maus tratos, vindos de qualquer entidade (pública, privada), personalidade (física, jurídica) ou natureza (familiar, profissional, social). Em contrapartida, a religião não deve se isentar das diversas questões práticas que atingem de forma assombrosa as mulheres, crianças, a sexualidade das pessoas, a etnia e até mesmo os animais. É preciso, em toda e qualquer situação, elevar a condição humana acima do mecanismo pessoal e social da fé, principalmente nas profissões que regulam conflitos. Abuso físico, emocional, sexual, negligência, tem sido amplamente protegidos ou justificados ou omitidos em razão de estarem sob a imunidade de autoridades de fé.

Algumas políticas perpetuadas contra os ateus no mundo são de arrepiar, e por isso devem ser discutidas tanto local quanto globalmente, sem o peso da censura, de represálias, da exclusão. Para se ter ideia, a União Internacional Humanista e Ética e a Reuters emitiram relatórios que deixam exposta a realidade bastante cruel enfrentada no mundo pela falta de Deus no coração: sete países condenam e executam cidadãos que não sejam fieis a religião oficial. Afeganistão, Irã, Maldivas, Mauritânia, Paquistão, Arábia Saudita e Sudão praticam a pena capital para quem for reconhecido como ateísta (o termo "reconhecido" foi utilizado propositalmente, pois nem sempre as acusações são por uma causa explícita). Alguns outros países vetam publicações de ideias contrárias às religiões oficiais, bem como a ausência do registro religioso (islã, cristianismo e judaísmo), impedem a emissão de documentos oficiais que garantem o exercício da cidadania (estudos, acesso à saúde) e a circulação entre territórios. Há dispositivos de lei em certos estados que vetam a atuação dos ateus em cargos públicos, e também rezam a invalidade de sua participação em questões jurídicas.

É preciso ressaltar que, apesar da realidade brasileira que, por enquanto, vai contra a promessa de um estado laico, existem dispositivos ao alcance de todos e devem ser usados. Contra o preconceito também estão garantidos os ateus em detrimento de quem “praticar, induzir ou incitar, pelos meios de comunicação social ou por publicação de qualquer natureza, a discriminação ou preconceito de raça, por religião, etnia ou procedência nacional”. 

                                           

terça-feira, 23 de abril de 2013

Lobos em pele de cordeiro e o Conselho Federal de Psicologia


As declarações da psicóloga Marisa Lobo (aquela lá, que gosta muito da Xuxa e não vai com a cara do padrinho dos “humanos”, que nem lembro o nome agora) e Silas Malafaia (amigo da Gabi) me preocupam. Temo que, se ficar muito tempo exposta a elas, quem sabe eu comece a babar, perca a coordenação motora... Estas pessoas são dotadas de um registro de classe, áses da “carteirada”, simplesmente não são capacitadas para exercer a profissão, mas parecem ter imunidade e fazem o que bem querem. 

Lobo, menos refinada que o guru da articulação (não da arguição, deixemos claro), se expressa por diversos meios: imagens em suas redes sociais (que parecem ser editadas por alguém inexperiente no paintbrush e sem noções básicas de gramática); twitts passionais que revelam sua inabilidade argumentativa (inclusive diante de questionamentos legítimos); palestras e vídeos que doem no âmago.

Num dos seus tumultuados vídeos, Marisa declara:

“Vocês prostituíram a ética e a ciência da psicologia, transformaram o conselho de psicologia em partido político ideológico. Vocês não são deuses”. (?)

-Vovó? !!!!!!!!!!!!!! Porque essa boca tão grande?

Ela não está falando do grupo ativista de espécies de gente que tem a orientação sexual diferente da dela, nem dos ativistas sem religião ou supostamente malévolos, “não-cristãos”. Ela está dizendo que o Conselho Federal de Psicologia (CFP) é um cafetino, por causa de posições “ideológicas” e “políticas”. Eu entendo de suas declarações que não é ela quem deturpa a ciência da psicologia e da ética, mas sim as normas do Conselho, que ferem suas convicções pessoais. Diz que o Conselho não apurou as denúncias. Ou seja: o Conselho é um chato de galocha. 

Marisa Lobo, assim como Silas Malafaia, com suas declarações para a mídia em massa, fere violenta, explicita e descaradamente as premissas da Resolução interna nº 001/99 do CFP. 

Já que a Marisa pode, eu também posso: o Conselho Federal será conivente e tão irreponsável quanto ambos, caso não tome nenhuma providência. A suspensão das credenciais para exercício da profissão é o mínimo a ser feito, tendo em vista o sofrimento psíquico que a disseminação de suas ideias homofóbicas e racistas podem causar nas pessoas e na sociedade, e o reforço aqueles que já levantam a bandeira contra os direitos civis e humanos dos indivíduos que estão sendo atingidos pelas ideologias e ainda mais: a responsabilidade de uma classe inteira, já que estes se tornam referência de conteúdo e prática, por seu alcance midiático. 


Vamos entender como funcionam as coisas: segundo ninguém menos que o PRESIDENTE DA REPÚBLICA, uma das funções do CF é funcionar como tribunal superior de ética profissional. Olha só que bonita função! É explícita a transgressão destes dois “personagens” em vários aspectos da resolução, que posto ao fim destas considerações para que o leitor confira. 


Dois pontos cruciais da Resolução que são claros e taxativos, e a meu ver, suficientes para sustentar as denúnicas: em primeiro lugar ela “IMPEDE os psicólogos de colaborarem com eventos ou serviços que proponham tratamentos e cura das homossexualidades, seguindo as NORMAS da Organização Mundial de Saúde e IMPEDE que os psicólogos participem e se pronunciem em meios de comunicação de massa de modo a REFORÇAR o preconceito social existente em relação aos homossexuais como portadores de desordem psíquica.”. Em segundo lugar, ela determina expressamente que o psicólogo tem o dever de “CONTRIBUIR com seu conhecimento para o DESaparecimento de discriminações e estigmatizações contra aqueles que apresentam comportamentos ou práticas homoeróticas. Neste sentido PROÍBE os psicólogos de qualquer ação que favoreça a PATOLOGIZAÇÃO de comportamentos ou práticas homoeróticas e proíbe os psicólogos de adotarem AÇÕES COERCITIVAS tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados.”


A Resolução data de Setembro de 2003. Em caráter exclusivo, e muito gentilmente, o próprio Odair Furtado, redator da Resolução e Presidente do CF na época em que foi registrada, respondeu às minhas indagações quanto à atuação do Conselho com o seguinte:


“Acho que os psicólogos mencionados, provavelmente, estão respondendo a processo ético, mas os processos são sigilosos e nós não teremos como saber. Somente depois de julgado eles são publicados (os resultados), caso o psicólogo receba alguma condenação. Sobre a Resolução, acho ela bem direta e clara. Nenhum psicólogo pode prometer a CURA da homossexualidade porque não se trata de doença, de acordo com a Organização Mundial de Saúde. Qualquer pessoa, de qualquer orientação sexual, de credo, cor, gênero, enfim, qualquer ser humano está sujeito a transtornos da subjetividade e poderá (é recomendado) procurar o psicólogo. Inclusive se achar que esse transtorno é provocado pela sua orientação sexual. O que o psicólogo não pode fazer é considerar que se a orientação sexual produz qualquer transtorno (como de resto qualquer coisa na vida poderá produzir: o emprego; o casamento; os filhos, etc) a pessoa deverá mudar a sua orientação. A psicologia é rica em alternativas e um psicólogo(a) competente saberá como atuar com uma delas para garantir a saúde mental do usuário de seu serviço.”


Professar convicções pessoais e religiosas se apropriando da força da Psicologia, alcunhada tanto na prática dos especialistas quanto pelo crescente interesse público no assunto, para que sejam facilmente impostas na sociedade, subverter a credibilidade atribuída a uma classe regulamentada e à Ciência, se configura mais do que um problema que não se resolve apenas com retratação pública. 


Por fim, cabe salientar que as ideias que vem sendo disseminadas em veículos de comunicação (mídia impressa, palestras, entrevistas, videos, redes sociais) tratam homossexuais como pessoas que não devem usufruir de direitos civis relacionados à propriedade privada, que pessoas que queiram se relacionar fora do cerco religioso não têm direito a constituição familiar e sequer à regulação do uso de suas intimidades em comum, de forma consentida. Sem amparo científico, dados consistentes ou argumentação fundamentada, se impõem em assuntos de impacto social. Seus argumentos invalidam o respeito a qualquer tipo de formação familiar saudável, mas não “tradicional” e sustentam campanhas contra a discussão dos direitos da mulher na questão do aborto. A disseminação dessas ideias fere a ética dos psicólogos, que é LAICA e, portanto o exercício da profissão não pode ser um instrumento de fascistas que condenem a natureza das pessoas. 

Vamos ensiná-los, então, “que nem” eles fazem, ok? Vamos, lá! Repitam comigo, alto, com emoção, com alegria, abram a boca, como um louvor: os psicólogos devem ZELAR pela saúde mental das pessoas!

quinta-feira, 21 de março de 2013

Crônica Ordinária


A Vagabunda é aquele tipo de mulher que passa por cima de tudo e de todos. Usa os filhos pra conseguir privilégios, fazer cena, sustentar a imagem de fêmea de coração mole, mas não sabe sentar no chão na sala para montar um quebra-cabeça com eles. Na verdade ela só não abortou por que não podia perder a pensão. O marido está com câncer no reto, e ela para na farmácia pra buscar um analgésico. Vagabunda não se importa com ele, mas pelo que os outros podem dizer se descobrirem que ela se distraiu com os esmaltes e quase esqueceu que o marido sente tanta dor que não pode levantar pra fazer isso por ele mesmo. É, cara chato. Tem que ficar com câncer e estragar a viagem a Cancun... Aliás, os latinos de camisa rubra de Cancun e os garçons do restaurante sentirão falta dela e isso a deixa furiosa e vingativa. Ainda que ela seja um arroz com ovo pronunciado com a frescura de um sotaque francês ou um pão com tomate recheado de Botox sintetizado do cavalo da mais nobre descendência, na ferveção ela se sente divina. O que salva é que o amante estará esperando amanhã no saguão do shopping, depois que ela deixar os diabinhos na escola. Muito provavelmente irão ao motel beira-de-estrada com cheiro azedo de ralo. Da última vez tinha ranho grudado nas paredes e uma manchinha de menstruação na fronha do travesseiro. O cara é casado com uma gorda flácida e quase careca, diz que não se separou ainda por dó – mas que vai ao fórum hoje ainda. Ele faz amor como se ela fosse a última fêmea fértil do planeta. Ele não a elogia, não traz flores, sobe a calça sem ter pousado a cabeça dela em seu peito por algumas lufadas de ar, jamais tocou seus cabelos, mas gosta de brincar de descobrir qual o champanhe ela vai levar dessa vez. Quase nunca é um cara potente, mas isso a enternece. A dose que ele injeta de autossuficiência na vida da Vagabunda é cada vez mais intensa. Mas ela não está apaixonada. Enquanto ela utiliza as unhas para fechar o cinto do homem que tem um suor amargo, ele meleca as laterais da cabeça com um gel de cheiro que faz arder suas delicadamente recauchutadas narinas. No mesmo exato momento, no bairro vizinho, seu marido olha a foto dela na carteira. Os traços de esperança na pele da cara do simpático homem parecem terem sido removidos com um pano, como se alguém o esfregasse com força e suas marcas tivessem ficado todas transferidas para o tecido. Ele está deitado numa cama de lençóis sedosos, sobre um colchão importado que massageia a coluna e o ego: ele o comprou pra garantir que a sensibilidade lombar de sua princesa não sentisse o inconveniente de um só gomo de espuma. Tal como a história da princesa e a ervilha. Mas o cheiro de merda da bolsa plástica acoplada ao seu abdômen é nauseante até para ele. E ele tem medo de dizer à Vagabunda que não se sente mais amado, que quase morreu porque ela se recusou a olhar para ele enquanto espumava no chão ontem a noite, porque o celular dela vive desligado, porque ela não tem paciência para escutar suas lamúrias e o castiga com desprezo ainda maior toda vez que ele abre a boca.

Toda vagabunda já deve ter sangrado com o músculo do peito partido entre os dedos rotos, ter tido a cara jateada por cerveja barata como se a lavassem de uma culpa que não era dela, o estômago embrulhado por uma rejeição violenta. Já deve ter sido uma menina vivaz em busca de atenção e foi surrada ou subestimada ou inferiorizada por um pai alcóolatra, narcisista, negligente. Já deve ter sido torturada por uma mãe invejosa. Talvez grande parte desse tipo tenha sido apalpada contra vontade na carne do seio por alguém que lhe inspirava proteção.  Talvez tenha sido repetidamente abandonada enquanto demonstrava afeto e dedicação, ou quem sabe, sumariamente humilhada e agredida por pessoas que não faziam questão ou tinham consciência da sua presença. Talvez elas sejam moças normais, que consigam amar apenas o dinheiro, as vaidades efêmeras e tudo aquilo que valha sua vaidade. Não sei.

Fato é que conheço muito homem de bem que já foi traído por uma vagabunda, daquelas que beijam de língua o corno ainda com gosto de sêmen de um macho de alfa a zeta na boca (geralmente de um macho que não lava a mão sequer para pegar no próprio pau). Conheço mulheres que foram contaminadas por DSTs graças a uma traição impiedosa, uma covardia, enquanto faziam a marmita de comida preferida do marido. Também se tem notícia de homens que, sinceramente, só podem é gostar do cheiro de outro macho impregnado na mulher... Como bichos que são, talvez sintam o cheiro da testosterona de tabela, e isso os excitem – logo, penso que possam ser homo ou bissexuais enrustidos. Geralmente estes se envolvem com as casadas, noivas, namoradas – que não largam o osso oficial ou aquelas solteiras descaradamente liberais. Às vezes também vão aos puteiros, que é onde os cheiros de homens predominam e se misturam uns aos outros, não obstante numa mesma sambada mulher. Se todo homem bom já foi um vagabundo, não sei. Se toda mulher vagabunda já foi uma mulher bacana, não sei.

O marido está morrendo, e ela está ocupa administrando duas personalidades paralelas. No fundo ela prefere não pensar nas boas coisas que ele proporciona a ela, no cuidado desmedido, na sua doçura e bondade, na amizade gratuita que recebeu sem pedir muitas vezes. Prefere não pensar nas maldades que faz a ele, e em como ela é ardilosa com alguém tão bem intencionado. Ela prefere não encarar sua inabilidade e ingratidão para com outro ser humano, prefere enterrar a culpa e deixar a parte ruim para os outros. A reciprocidade é uma armadilha, ela pensa: ninguém dá valor a quem é bobo.

Mas de uma coisa eu tenho certeza: pessoas ordinárias só existem porque pessoas honestas existem e vice-versa, e puteiros só existem porque muita gente (e aí você adjetiva como bem quiser) faz questão de puteiros e puteiros precisam de gente para existir.
 
*mesmo não tendo obrigação alguma de dar nota em textos literários, por favor, pensem na arte espontânea antes de acharem correlações estreitas com biografia e que todo e qualquer texto simplesmente traduz a vida de um autor, ok? Por um eu-lírico livre e não encarcerado na realidade crua.

Abrindo a caixa


Dizem que estar em absoluta solidão é um modo eficaz para se voltar pra dentro de si. De estudar-se, perceber-se, sentir-se com o tato desesperado da mente. Conversar consigo sem produzir som e ouvir nitidamente o timbre de toda pergunta e resposta. Dar atenção pra uma música que o corpo pede pra dançar. Sentir um aroma capaz de despertar ideias criativas, ou até mesmo, fome. Perceber que um lugar do corpo precisa de mais carinho, ou cuidados. Pescar uma lembrança interna que arranque um sorriso. O que acontece quando pessoas sensacionais entram em depressão profunda? Tudo bem que é igualmente chato ficarmos sozinhos por falta de opção, e não por vontade própria ou aproveitando uma oportunidade qualquer que venha a calhar. Falar de nós quando não estamos bem é fácil, do nosso momento depressivo, mas e essas pessoas das quais a mente está fora de nós? Curiosidade por conseguir apenas supor, mesmo. Se algumas pessoas são tão incríveis para nós, porque elas não conseguem se deliciar em si mesmas, ou se perceber em minúcia neste momento de introspecção? O que elas fazem nestes momentos de ausência da multidão? Será que revivem situações desoladoras do passado a ponto de as emoções e sensações escaldarem no estômago e transbordarem dos olhos em lágrimas quentes? Será que se deixam anestesiar pelo crivo criativo da mente, sendo tragadas ora por ondas sombrias ora por ondas coloridas que se alternam no tempo e que as confundem o senso de orientação, sua navegabilidade? O que é que elas fazem que lhes tire o prazer neste mergulhar? Estariam entretidas com as histórias dos outros, como crianças impressionáveis? Será que há muito ouro reluzente lá dentro que ofusca a visão da pessoa? Será que ela entra de roupa de mergulho na fonte de água pura e fresca, e perde percepção da temperatura, não se lembra de sentir a carícia liquida da água na pele e na pelugem? É bem verdade que encontramos momentos difíceis. Quantos lixos emocionais se acumulam, mesmo depois da gente ter feito com eles uma sangria amalucada e peregrinado pelas suas frestas repetidamente, se cortando com a mesma dor de todos os modos possíveis e imagináveis? Sabe aquela situação que você rói, remói, lambe de lado, de frente, de costas, põe do avesso, chacoalha, atribui, renomeia, customiza, salva, empresta, pega de volta, lava, impregna, trata na terapia, na mesa de bar, escovando os dentes, traz a tona, abafa, apedreja, joga pra alguém, pede de volta, enterra, cozinha, morde, cospe, queima, tritura, dissolve, mas nunca se livra de uma vez dela? Deixa-a ali, não importa em que farrapos a situação já se encontre, quão batida e sem bateria, sem força motora, sem energia pra se acender sozinha, mas está lá ao alcance dos olhos, do coração, das mãos. E você uma hora possa querer usá-la pra se boicotar de novo, quem sabe. Muito fácil falar, mas como nada é eterno, me diga: Você não enjoa, não? Tem coisa/situação/sentimento passado que nem faz mais parte de você, mas você declara patrimônio da história da sua humanidade nos capítulos doloridos. Eu não acredito que as coisas passem, simplesmente sumam da mente, por maior que seja nosso esforço. Talvez por isso seja válido esfolar um sentimento, um complexo ou trauma, berrá-lo até sair sangue da garganta. Sentir até a última molécula o mal embutido ali, ser intenso, exauri-lo. Até o ponto dele mesmo ser reabsorvido pela vida ou por você e transformado como uma imagem extática, com cada vez menos carga emocional. Somos educados a calar nossos males, e incentivados a histeria. Eu sou a favor de que o sofrimento não seja preservado como uma relíquia, mas sentido/compreendido em sua plenitude até o ponto que não represente mais um incômodo. Temos a capacidade de destinar passagens e experiências a muitos caminhos: será que é exatamente por isso que um homem compra crack com a mesma quantia que outro revende algo num farol e se torna milionário? A questão não é empreendedorismo comercial, mas empreendedorismo pessoal. Até o ponto em que podemos intervir sozinhos em nosso psicológico/químico/físico, gosto de pensar que uma das medidas fundamentais para que consigamos tirar de cena peças antiquadas é: desejar com vontade peças totalmente inéditas e bacanas para botar no lugar. A outra medida é tirar o pó deste seu lugar, que é permanente enquanto você viver. É o que estou tentando fazer, as vezes é escrevendo que consigo. Torçam por mim, torço por vocês.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Corset

Sem dobras na língua, se permitia dissertar preferencialmente sobre assuntos que tenham sido largados, de propósito, às margens das convenções, polêmicos e até mesmo escatológicos (contanto que não remetessem a maus odores) e costumava meter um medo gélido naquelas entidades supremas, que ficavam cheias de dedos ao emitir suas opiniões, e com as quais ela dividia as suas.

Era aquilo ali, nem sempre incontestável, não religiosamente tão bem fundamentado com palavras; e foda-se. Esperava arguições mais convincentes do que as suas, esperava que a fizessem mudar de opinião, desejava profundamente gostar mais de ouvir outrem do que a si própria, desejava estar errada e ser surpreendida por pontos de vistas fulminantemente iluminados, daqueles que merecem o brinde da noite. Tinha expectativa em ser advertida pelo novo, mas não por qualquer novo.  Claro que, como moça direita, eleita pra suprir expectativas de uma rainha, era a boneca preferida da mamãe: tudo que fazia estava errado, porém era boa demais pra qualquer um.

Além disso, e talvez, em partes, por isso, não tinha sorte alguma nas relações afetivas. Procurou nunca esquivar seus sentimentos dos mais duros e variados golpes amorais das paixões alheias, ao contrário, os deixava sempre à mostra para que fossem nocauteados. Se essa era a graça? Não. De fato, doía se expor e desnudar pessoas. Mas era um jeito rápido e autêntico de sorver a realidade em estado líquido.

Imaginava, com ironia lacônica, que talvez fosse difícil demais para os homens a atividade desgastante de segurar uma ereção diante de imperfeições femininas de origens diferentes das suas: como uma gordurinha antiestética, uma estria irritantemente desarmonizadora ou uma performance menos performática.

No caso dela, era a fraqueza do outro em não exercitar o “ser” original que roubava dela todo o desejo. Cansava-se facilmente dos tipos receosos, de gestos de dimensões calculadas, dos que já haviam ganhado narinas arreganhadas por conta de uma exposição não-plástica de felicidade imbatível. Logo se via, embrulhada até o estômago, em aversão aos fracos de postura, desafiando-os e provocando-os a ponto de ridicularizar a prepotência em fluxo: o ofício pérfido de agradar a todos – inadmissível para uma grande vaidosa, pensava que essa tal de gratitude onipresente toca mais a corrupção do que a prudência.

Enjoava de ser forçada a rir (e vez ou outra o fazia descaradamente em forma de deboche – quase nunca por educação) das piadas insípidas, dos palhaços de tabloides. Muitas vezes não eram capazes sequer de perceber a controvertida sinceridade exagerada da moça, quanto menos saberiam alegrar seu clitóris. E neste assunto, enchia-se dos falsos ingênuos que propagandeavam suas habilidades sexuais míticas, que doam, de certo por grande senso de caridade e aperfeiçoamento e não, aliás, jamais porque a oferta é maior que a procura. Isso geralmente se dá a toda e qualquer preenchedora de requisitos mínimos de gênero (ou não, vai saber). “É fácil pensar que toda portadora de um orifício reprodutivo busca um cavaleiro/cavalheiro profissional para beneficiá-la com seu expertise” – dizia ela, em escárnio. “É um estilo de vida, quem sou para criticar?”. E a partir do uso de numerosas éguas, sendo cavalgar sua maior ou talvez única habilidade na vida, crê ser impreterivelmente unânime a apreciação das suas avançadas técnicas e modalidades de equitação.  O que se pode fazer? E o que para a maior parcela da opinião pública parece sedutor, para ela vai se tornar patético.

Desiludia-se com o excesso de ar nas embalagens, enchidas a mea bomba. Sentia-se refém da própria delicadeza incompreendida e mais ainda, da necessidade de cativar, para cuidar de si, um filete de força masculina. É o que se faz quando a mais tenra expressão masculina, representada por um tórax possante e acolhedor de um guerreiro, não  consegue superar o arquétipo comum de peito de frango assado, tão depilado quanto as atrações da virilidade.

E pensando em tudo isso ela despenca do alto da própria brochada morna, numa viagem mental em que o corpo se desliga da mente. Lá, e somente lá, por ora, é onde encontra um outro homem com melhores atributos. Anestesiava-se para que o corpo terminasse de ser usado, já sabendo que nenhum deles perceberia o mar de tristeza caudalosa evaporando dos poros. Onde estaria aquele que seria o melhor? Havia muitos projetos econômicos de bovinos, que a fatigaram com movimentos, para ela, mecânicos e vazios. De certo, muitos a amaram do pior jeito possível.

Sua mãe tinha mania de se meter em sua vida e era sua tese de que a filha estava fadada a não ter ninguém por reunir um caráter intenso, e modos impertinentes, agressivos e insubordináveis demais para uma dama. Constantemente não retribuía manifestações de carinho – ainda mais após examiná-las a fundo, e não tinha um puto de decoro. Quase tudo a que se permitira parecia aos outros um grave pecado. Apenas a exposição de detalhes, que só deviam pertencer a sua consciência, atenuava os ânimos alheios como se devesse satisfação de sua existência.

Sentia a amargura causada pela intromissão ao que não importa e a omissão às verdadeiras necessidades. Via de perto as estruturas inóspitas de todo e qualquer pervertido agrupamento humano. Questionava as faces do pudor e se debatia contra uma neurose grupal, onde as pessoas se deleitam na fiscalização de suas próprias fantasias transferidas aos outros – que por vezes as repudiariam, em cíclico vício nauseante de masturbação coletiva. Já teve um orgasmo ruim? Não que ela julgasse isso normal, mas era recorrente em sua vida.

Livre e resolvida que era não se daria o trabalho de mentir, tampouco se sentia na obrigação de arregaçar sua intimidade. Para se proteger se tornava necessário deixar claro que feitos pessoais não tinham que ser públicos, a menos que essa fosse sua vontade. Fora de cogitação estava abaixar a cabeça em silêncio diante dos voyeurs, pois pegam a mudez e encaixam as vozes que querem.

De tudo, aprendera como ninguém a identificar perguntas e ordens desonestas de autoridades desonestas, fossem ou não sobre sua vida privada e íntima, e aprendeu a não se sentir obrigada a mais nada. Limitou-se a dizer o que era lícito e conveniente, e desde então levanta o dobro de dissabor por onde passa.

Paradoxalmente, sempre achou que pudesse ser narrada em terceira pessoa, mesmo antes que a história tivesse um final.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Sair de cima do muro dói... Mas é preciso.

O texto abaixo é uma pérola que pertence ao grande amigo Pedro Lima, e que fiz questão de postar aqui... Faça bom proveito! =D

Todo mundo conhece aquela frase “é impossível mandar no nosso coração”, e concordo plenamente que sim. Contudo, muitas vezes não é o coração quem está influenciando na nossa vida e tomadas de decisão.


Entoar este “mantra” muitas vezes pode ser o sintoma de algo que talvez seja muito mais complicado, que é ficar em cima do muro. Um muro alto, difícil de ser derrubado e mais ainda de ser transposto.

Um muro de apego, de lembranças, dúvidas e medos, tudo isso somado às sequelas de outros relacionamentos, cujas quais sempre tentamos superar, aperfeiçoar e acima de tudo, evitar. É, não é fácil se livrar de muitas coisas, principalmente quando há esperança envolvida. A bendita (ou maldita, para alguns) esperança de que algo vá mudar por si só, que a coisa vai dar certo de vez ou esperança de que um milagre aconteça mesmo.

Mas não adianta, ficar em cima do muro é a pior decisão a ser tomada, pois além de alto, o que pode causar um “tombo” descomunal, é frio, solitário e te deixa “bege” para as outras pessoas. Esse isolamento faz com que, aos poucos, deixemos de existir para o novo, deixemos de nos arriscar e aproveitar novas situações e até mesmo novas decepções.

Não adianta levantar uma couraça ou blindagem, quem já sofreu uma vez vai, sim, sofrer outras tantas, e ficar parado e isolado não resolve, pelo contrário, implica em mais sofrimento, principalmente ao ver o tempo passar e nada acontecer ou mudar.

Portanto, saia de cima desse muro, construído pelo apego ao que já passou, desça para a realidade da vida, e encare que nem sempre tudo vai sair como se espera. É assim mesmo, não tem jeito.
O sexo era bom, os momentos juntos foram inesquecíveis, as viagens marcantes... Mas não são mais. E por causa disso, deixa-se de experimentar um sexo ainda melhor, outros momentos inesquecíveis e principalmente, conhecer outras pessoas que também façam a diferença.

A descida será dolorosa, e dependendo da altura do muro que foi construído, demorada, porém, mais do que necessária. Enfrente esse desafio, pois do alto do muro você só enxergará pontinhos, e ninguém vai ver você, mesmo olhando para cima.
O principal agente de mudança na vida é o próprio indivíduo... Mude. Saia de cima do muro.

Autor: Pedro Lima
https://www.facebook.com/thalita.pacini#!/limapedrop

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Até que as redes sociais os separem... ou não.

 
Por Thalita Pacini

“Você tem Facebook?” Essa é uma das maneiras de estender um affair, vai negar? Você conhece uma pessoa e, se também já foi engolido pela febre do #mundosemfronteiras, logo verifica se ela participa de alguma rede social. Atire a primeira pedra quem nunca jogou o nome de um pretendente no Google. Se sim, pronto! Você já sabe que a pessoa passou em determinado concurso público, que é a favor da libertação da Palestina e talvez saiba até a marca da lavadora de roupas que ela possui porque viu um registro de reclamação em algum fórum. Se você for perspicaz conseguiu até uma análise genética dos traços físicos porque tem sempre alguma foto de família perdida num blog ou nestes álbuns públicos conhecidos de todo mundo. Então, você calcula mentalmente se deve enviar um convite, e pensa se a pessoa aceitaria algum dos possíveis invites. Isso se não é você quem está aceitando o dela, que foi mais rápida na busca pela rede. Agora é só alegria: compartilham ideias, um curte o post do outro – às vezes só pra marcar presença, como quem não quer nada verificam se pertencem às mesmas comunidades, descobrem amigos em comum, fuçam nos álbuns de foto e xeretam as mensagens recebidas. Fica fácil transitar por entre várias partículas de afinidade que possam ser usadas na arte da sedução. Eu, particularmente, adoro quem deixa visível os comentários que faz nos profiles alheios no Facebook (quem não gosta?). Então, sempre você acaba sabendo de um passo ou outro que a pessoa deu. Ninguém pode negar, as redes sociais facilitam demais a aproximação. Invasão? Ah, será? Primeiro que o conteúdo está público, segundo que curiosidade e interesse são sentimentos naturais, que podem ser usados para objetivos calculados ou instintivos. Não sei o que deu em algumas pessoas que querem se mostrar tão roboticamente desencanadas, politicamente corretas. Na verdade, eu não caio nesse lance de que "fulano" é completamente out da vida do outro, a não ser que tenha outra vida mais interessante da qual queira se interar. Estamos sempre dando ibope ao que nos atrai, fato.
 
 
Mas, cá entre nós, passado o deslumbre inicial da "sorte" do encontro, da esperança e idealização (eba, uma chance de desencalhe) e da curtição virtual, aposto que muita gente já ferveu sua querida massinha encefálica por causa da rede. E as situações são as mais variadas.


Um scrap com duplo sentido que alguém te enviou pode gerar uma baita arruaça, um recado oportunista ou venenoso de uma colega de trabalho que não se conforma em você ser casado, mesmo que não lhe faça a menor importância, pode alterar drasticamente sua imagem com a “queridona” (tem mulher sem noção que curte jogar fósforo em palha seca).  Imagine que surja um bofe estranho como novo amigo do seu namorado (você já vai logo tachando de feio), que explicitamente - e graças a sua análise, está ali com o intuito ovulações em qualquer gay safadinho: óbvio que você já faz um print da foto do profile pra saber quem é “a periguete" (apenas um adjetivo pra não poluir o texto). Suponhamos que você bom moço, com saudade da sua "mina", vai rever os álbuns de fotos antigas dela e se depara com aquela moça mais descontraída que malandro do centro (engraçado que você a conhece meio parruda e às vezes até terrorista-fundamentalista-islãmica quando se trata das SUAS amigas). Ali está ela, abraçada com uma trupe de machos. Já aconteceu de você achar que conhece de algum lugar aquela colega do seu namorado, morena com cara de biscate, e quando vai ver o profile dela se liga que ciclano vivia dando "apoio moral" nas fotos de contorcionista dela e de outras várias amiguinhas melindrosas: você chega vê-lo mentalmente de língua de fora, sainha plissada e pompons de team leader bombando a autoestima de uma multidão de marmanjas com peitos (ódio) femininos assim como você. E quando foram questionados - assim, claro, como quem não quer nada ou "só pra saber", um dos dois ou ambos disseram que não "ficaram/se relacionaram/saíram/transaram" com pessoas que estão/estavam ali - mas pouco a pouco se descobre que a real não é/era bem essa... E o conteúdo que o outro compartilha ou curte, então? Já aturou mau-gosto irritante, não é? O fato é que você já tinha visto todas essas coisas quando estavam apenas no começo de tudo e misteriosamente, um tempo depois de assumir o posto de titular, passaram a te incomodar. Implicância de quem olha, provocação de quem instiga com ingenuidade, falsa impotência de quem permite ou mantém? Considere a tríplice. Por que raios você passa por cima dos seus critérios ou finge que as coisas não te incomodam, só pra parecer que "jamais tolheria a liberdade do outro" ou que é um cara "desencanado", "bem-resolvido" e que "confia no seu taco"?


Já percebeu quanta cerimônia e expectativas são depositadas no ritual de alteração de status no relacionamento? Para os defensores de que isso é totalmente acessório, que se trata de formalidade desnecessária, avessos aos compromissos e manifestações públicas de afeto, está perpetrado o inferno pela maldição de um simples campo de um programa de computador. Para quem está louco para anunciar ao mundo sua felicidade, o gesto adquire uma importância transcendental, um momento a recordar, um protocolo que legitima seu direito a estabelecer ali um certo tipo de propriedade. Pois é, pessoas são diferentes e há o meio termo também. Então, muitos casais entram em conflito. Relacionamentos começam e terminam por “ali” ou por causa “dali”. Uma simples mudança de status acompanhada de uma queda brusca e burlesca da popularidade do indíviduo pode provocar desconfiança (será que o movimento festivo migrou para o inbox?).  Algumas pessoas já decidiram que falar a respeito de algo relacionado é pura infantilidade. Será? Este tipo de afirmação seria ou não uma desculpa para encobrir coisas? Um modo de não alimentar discussões não é simplesmente negar o outro com quem você se envolveu. E quem se sentiu incomodado ou em dúvida, o que faz? Engole a seco, revida tudo ou alimenta calado um câncer no esôfago? Acho que o diálogo ponderado é sempre a melhor saída para desfazer desentendimentos,sem que sejam alimentadas possessões e pilantragens. Ninguém gosta de se passar por bobo, ainda mais publicamente. É muito justificável que sensações desagradáveis evocadas pelo mundo virtual de um parceiro clamem para que alguém reveja conceitos (seja o reclamante ou o reclamado). Se existem coisas deste universo intangível que legitimem um rompimento? Óbvio que sim. A importância da identidade virtual, seja ela consciente ou inconsciente, ganha uma proporção assustadora na atualidade. Não porque é um aspecto separado do todo, mas porque é um representante do todo. E o todo nada mais é que um humano de carne, osso e toda sua significância. Redes sociais costumam englobar instituições das mais variadas – família, trabalho, conhecimento, entretenimento, sexo, informação, utilidade pública. No quesito relacionamento, saiba se colocar no seu lugar e observar em que lugar também você foi colocado pela outra pessoa.

 
Qualquer mínimo movimento pessoal comunica. O que evitamos dizer diz coisas a respeito de nós. O fato de estarmos diante de uma solicitação que não respondemos, mas obviamente nos saltou às vistas diz muito a respeito de nós. As palavras que escolhemos usar, o tipo de assunto que nos arranca gargalhadas, tudo aquilo a que aderimos, compartilhamos, nossa prontidão em devolver algo. As redes escancaram as tendências individuais da moçada. Revelam traços identitários. Pela escrita (estilo, vocabulário, organização estética, ritmo) é possível que se verifiquem traços de personalidade e até formação (algumas pessoas tem uma sensibilidade abstrata e outras veem com precisão quase técnica). Usamos imagens – que podem reforçar ou mascarar (:D) a realidade, na autoafirmação (!!!), na discrição (“ ”.)ou no exagero (CAIXA ALTA), em silêncio (...), rindo (haha é diferente de hehe).


Engana-se profundamente todo frequentador assíduo, que diz: “Meu scrapbook ou mural não representam nada do que sou.”. Você que pensa. Não tem jeito, você revela suas inclinações, gostos, afazeres, rotina e por consequência pode tanto deixar escapar virtudes que não conhece quanto contradizer uma boa propaganda. E casais podem se estranhar com tanta informação que talvez, nem tenham consciência de que processem. Não precisa contratar um analista de profiles ao estilo Criminal Minds para sacar um monte de aspectos de uma pessoa. Assim também como cada um interpreta o que vê de acordo com sua própria bagagem. E não há ninguém melhor do que você para saber o que lhe cai bem.


E depois de uma discussão cheia de controvérsias, sua (seu) namorada (o) diz: “vou excluir esta merda, porque você está paranoico (a)”. Não se iluda. Se algo realmente o incomoda esta não é a solução. O universo simbólico deixará de existir, mas tudo aquilo que ele simboliza permanecerá. Eu não diria que oculto, porque de uma forma ou de outra as coisas precisam se manifestar. Em miúdos de frango: se é galinha, se é confuso, se não é romântica, se dissimula – isso se manifestará de outras formas. A solução é avaliar o quanto as coisas são relevantes para você, o quanto aquilo representa uma ameaça real ou simplesmente permite leituras mais profundas sobre quem está ao seu lado. Mas, definitivamente, a culpa nunca é das redes sociais.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

O cachorro

Como é que se conduz um rato no labirinto? O que é que se espera dele? Que ele ache a saída ou que fique por lá tempo suficiente para que proporcione expectativa, emoção, vibração? Havia uma grande caixa labiríntica e um rato posto ali desde sempre. O rato era de um otimismo infalível e um faro completamente aguçado por qualquer resquício que escapasse das fendas de tudo o que ainda não havia decodificado. Ele podia fazer com que adormecesse o gato, tamanha era sua paixão e envolvimento por tudo que o rodeava. E eventualmente, era isso que o rato acabava fazendo, mesmo que cedo ou tarde o gato acordasse. E então, naturalmente, o labirinto era sua maior obsessão. E este pronome possessivo coube aqui para ambos, porque nem citei o sujeito. Para o rato, o labirinto era uma glória dentro da outra, era tudo o que ele podia amar, era tudo onde ele podia ser. Ele parecia arrogante para o gato, simplesmente por se dar tão bem naquele cubículo infinito. Tudo aquilo era apenas um recurso para mantê-lo ocupado, para que todos os seus porquês se dissolvessem sem que necessitasse exercitar sua massa encefálica, muscular e etérea. A saída não metia medo em ninguém. E em tempo, ali estava o rato confinado para que fosse minada a sua grandessíssima inconveniência, sua presença insignificante e sua herança biológica. Nada tinha ele a compartilhar, segundo as resoluções pessoais do gato. E o gato achava aquela segurança do rato uma lancinante ignorância arrogante e feliz, de quem ignora a amplitude do que lhe fora tolhido. O roedor já estava, de fato, educado pela brutal arrogância do labirinto. Totalmente vulnerável, nem um pouco seguro, mas sob controle (caixas tem paredes). O pequeno mascote poderia ter se tornado mais do que previsível para aquele que o observaria do alto, dentro de possibilidades cerceadas meticulosamente. Por alguns momentos parecia quase uma perda de tempo monitorá-lo. "Entediante" diria o gato com ironia deslavada, se também pudesse não apenas miar. Mas eis, a pura e dilacerante realidade é que o rato conseguia saber mais do que claramente, com mais nitidez do que o outro, o que havia lá fora do labirinto do qual se tornara prisioneiro. “Como ele pôde?” filosofaria o gato, se tivesse entendido mais profundamente essa coisa que percebeu sem o lume do esclarecimento. Incômoda é a perspicácia do outro, deselegante de tão vivaz, traço que ele adquiriu por si só. E algo no gato, a parte dele mesmo, diria para si: "tu que és Tu, jamais habitaste aquela caixa nem um pouco lúdica". O rato não é um típico provedor, manipulador, como esta posto o gato, senão da sua própria sede de viver de algum modo. O gato adora colocar defeitos nos passos do rato, diverte-se com todo tipo de intercorrências, porém jamais intercede criando algum benefício. Qual atuação te parece mais interessante, mesmo que menos digna? Te direi que embora o grande critique e subjugue o menor, em nada, sequer numa reles lambida, ele é mais feliz que o incansável caçador de caminhos. O menor o cativa, assim que possa ser observado, ali está para entretê-lo. E o gato acha o rato repetidamente arrogante, e ele de fato o é. O rato é o "sabe nada" que mais sabe tudo, de tudo e entre os dois. Supera o gato em todas as perspectivas. Ele fez do labirinto um mundo, enquanto o gato fez do mundo seu labirinto. O rato só é pura e verdadeiramente mais uma vez arrogante quando o gato se lembra de ser gato e, lá no fundo, tenta desmentir para si mesmo o quanto mais burro ele tem "quase" certeza de que é. Eu de onde estou, óbvio, não tenho dúvidas.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

O disfarce é de quem?

Pense na vida terrestre, a vida cotidiana, material, aquela que você
vive quando acorda de manhã até a hora de dormir. A nossa vida em família e amigos, a compra matinal do pão, o percurso do trem, o esforço na academia, o passeio despreocupado no shopping, sabe? Consegue vê-la como um videoclipe?

Apropriado ou não, vou dizer: eu acho que existem anjos disfarçados de pessoas. É sério!

E acho que estão compartilhando desta vida tão concreta, palpável, conosco. Aliás, acho que elas carregam um lote do nosso fardo diário, aliviando nossa carga, ajudando a abrir os trincos das portas enquanto estamos com os braços ocupados com sacolas (o que tem nelas?) ou quando não estão lá, ajudando na profilaxia das calejadas feridas.

E estas pessoas nem sequer sabem que são anjos, embora intimamente imagino que carreguem uma saudade crepitante dos seus iguais. Também acho que nem sempre alguém pare para elas. É triste como geralmente, ninguém pára para ninguém, a não ser que compense (sempre há uma forma de compensação).

Ninguém pára para o ato mais intenso que eu conheço no mundo (mais fervilhante que o sexo, mais que relaxante que a vitória, não necessariamente nesta ordem) para mergulhar em seus olhos, para olhar pra elas com verdade e silêncio. Contemplá-las.

Talvez eles sofram por não encontrarem a reciprocidade, por nem sempre conseguirem dar volume ao som de sua voz, de suas boas resoluções, talvez sejam as pessoas mais reluzentes, motivadoras e mais animadas que você conhece. Talvez sejam as pessoas mais inconsoláveis, mais enérgicas, mais rigidas e radicais, menos tolerantes com certas atuações ou coisas. Podem trazer a mistura de tudo isso junto? Sim, eu creio que sim.

Seriam dóceis e tristes tais olhos ou de uma felicidade tão profunda que não é possível adjetivá-la, traduzí-la, compreendê-la?
Não sei. Pare! Pare de apreender as coisas na teoria, de pescar o resumo de uma experiência. Eu peço por eles, que pare ao menos uma vez e dê a você a oportunidade de perceber por si mesmo, de permitir que eles sintam a recompensa de serem reconhecidos.

Que cada um responda por nós todos. Não deve ser fácil viver entre humanos, deve dolorir o calcanhar, o pescoço, os dedos que se esticam para auxiliar, deve provocar lágrimas silenciosas...

Viver entre a gente da gente que se olha, mas não enxerga: por dentro de si, por dentro dos outros. Estes anjos devem ser daquelas pessoas que parecem distantes, aquelas que você nunca lembra de convidar para coisas bacanas, mas que não esquece de procurar nas aflições. Aquelas que estão em algum lugar por aí. Aquelas que às vezes são caretas demais ou se destacam demais entre os amigos (e por isso é melhor que fiquem anônimas no seu círculo social), numa festa ou que são tão destrambelhadas que se arriscam demais por pequenas coisas ou porque precisam ser apenas o que são e isto tem um preço. Talvez você até inveje tal pessoa.

Talvez não tenham medo do incomum e fiquem horrorizadas com o comum, talvez desmitisfiquem algumas convenções sociais, às vezes coloquem sua consciência acima das regras e regras acima das formalidades legítimas da sociedade e da lei. Aposto que chocam, tanto quanto encantam. E amparam, e apaziguam e incendeiam. Será que são aquelas que reaparecem de vez em quando e fazem pontes entre coisas que te servem, sem pedir nada em troca? Acho que são. Talvez você tenha até se esquecido de agradecê-las ou perguntou estavam bem de modo tão superficial que nem se lembra da resposta. Talvez se dêem o trabalho que nem sempre as pessoas mais paparicadas por você, no seu dia-a-dia se dão...

Se puderem, talvez se lembrem de você por coisas que você mesmo esqueceu que era, que fez ou que gostava de fazer. Talvez te rasgatem daquele momento em que você deixou de ser você, para ser o que é superficialmente conveniente. E vai ver que até reza por aquelas pessoas tão queridas que pegam no sono antes mesmo de se deitarem. E estas deitam e dormem de tanta retaguarda subjetiva que lhes é ofertada.

Do que estarão disfarçados? De pessoas. De grandes amigos. E geralmente estão postos assim, meio de lado, porque você não pode diluí-los na sua nova galera, porque você não sabe repartir. Um simples conhecido? Um colega de faculdade? Um idoso, uma criança, um parente querido? Um companheiro de poltrona de avião? Um recepcionista, um jornaleiro? Um estranho na fila do banco, que lhe entregue apenas um sorriso, uma palavra certa, uma faísca de ideia, um gesto que lhe envolva como uma bolha de oxigênio em momentos de engasgos sufocantes. Estas bolhas são genuínas doses da centelha criadora. Eles são tão poderosos que parecem naturalmente inclinados a pequenos gestos vigorosamente instigantes.

Quem sabe você nunca chegue a ter conhecimento da totalidade de suas ações, mas morda os frutos. E destes frutos, espera-se que no mínimo seja possível saborear nitidamente uma lembrança ofuscada. Quem sabe, quem sabe... Recobrar os anjos que acenaram para ti. Por aqui, por ali, por ai estão eles. E parecem não se acomodar definitivamente nunca. Cuide para que eles não passem sem que VOCÊ crie a chance de, ao menos, abraçá-los.



imagem: http://raulmarinhog.wordpress.com/2008/10/30/altruismo-reciproco-voce-sa/

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Os contos modernos, sem fadas.

Eu gosto de estórias porque são mágicas e tem uma plasticidade inacreditável. O nosso mundo das criaturas de fadas é tão mutável, tanto como o ser humano também é. A realidade é que viver é algo para os loucos. “E nós somos todos loucos por aqui”, segundo o Mestre Gato. Vocês por aí não seriam mais loucos e nós frutos de vocês? E como a história nunca é a mesma, tenho notícias bem malucas para contar pra vocês.

Soube que o Lobo Mau paga o aluguel e visita, quase todas as tardes, a casa dos Três Porquinhos. Eles tomam juntos, cheios de formalidades, o chá da tarde e partilham o pão que o diabo amassou. A verdadeira versão é que os Três Porquinhos não iam se dar o trabalho de construir suas casinhas, e então, fizeram um acordo. Com ninguém menos que a sua maior ameaça! Aliás, com a Loba... Foi o que eu soube e juro ser verdade. Ele é ela, o lobo. Pra fazer um acordo tão cheio de fel só podia ser uma fêmea sedenta de amor, bizarramente apaixonada por um dos porquinhos, é claro! Onde já se viu, duas espécies completamente diferentes numa junção carnal? Sim, porque a Loba Mau é uma autêntica coroa cansada de fazer papéis secundários. E o porquinho do meio não nega o espírito de porco. A velha fábula na versão original já dizia: construa a sua casa – ela pode ser simples e ter dado um trabalhão, mas é melhor do que ser refém do Lobo. A Loba, que é velha de guerra, já morria de inveja da Chapeuzinho Vermelho na outra história. A menina era esbelta, com a pele sem manchas e o Caçador era louco por ela. Mas, quem diria que o Caçador curtia uma bagunça “de leve” e a Loba, muito puta da vida, sabia que era só a diversão do Caçador. Como a Chapeuzinho era uma tonta! O Caçador foi seu primeiro amor e passava o maior discurso na pobrezinha. Na verdade, ele já tinha experimentado a maioria das suas coleguinhas da aldeia. Então, a menina apaixonada levava os doces para a avó do Caçador, que na realidade era uma trambiqueira de mão cheia. A Loba prometeu jogar tranca com a velhota, prover a sua geladeira com carne de primeira (coisa que o médico tinha proibido a Chapeuzinho de levar) e garantiu a compra dos remédios que amenizassem a dor daquele corpo prostituto. Combinaram que um engoliria a outra sem mastigar, para por a Chapeuzinho Vermelho numa fria. Claro, a culpa de tudo era da menina ingênua de gorrinho cor da paixão. Foi ela quem cedeu a insistência da Loba e foi pelo caminho indicado sem grandes alternativas. No fim deu tudo certo? Quem não tem boa intenção gosta sempre de induzir as pessoas ao erro. A Loba escapou pra outra história. Mais uma lição: não se meta com Caçadores promíscuos. Se eles se importassem com alguém não manteriam nenhum tipo de relações com Lobas que possam engolir quem mais amam. Desconfie da mulher que o criou, ela pode ser uma velhinha do chifre furado e ainda terminar a história com uma cara de vítima do holocausto, de olhinhos condescendentes.

Eu conheci pessoalmente o João, aquele João do Pé de Feijão. Sabia que ele se arrependeu de roubar a Galinha dos ovos de ouro? Eles tiveram um caso de amor por longos anos, mesmo o João sabendo que havia roubado o gigante e podia ser esmagado a qualquer momento. Mas a mãe do João, quem nem nome tem na história, era tão pobrezinha, de espírito e de moral, que preferiu arriscar a vida do próprio filho. E ela não deu bronca no João por causa do roubo da galinha, não! Ela queria mais é vender os ovos, comprar roupas de marca, se empanturrar de comida. Claro, que o cú da Galinha não é de ferro e não demorou muito ela logo tratou de ciscar por outras bandas. Tinha enjoado do João (ele engordou o que não tinha engordado no conto de João e Maria, ficando cheio de estrias). Enjoou também da sogra tirana que queria um ovo após o outro, e foi arranjar um galo. Tinha que ser um galo novo, claro, um galo rapazote. Se o galo descobre que a galinha ainda põe uns ovos pro João, ele enforca o João no Pé de Feijão. Convenhamos que a galinha não é imortal, fato que está com tudo frouxo, né? Melhor ter um ovo frito na mão dos que seus dois ovos pendurados... Ainda mais pelo galo que não tem nada a ver com isso, pois na verdade, o ouro pertence ao gigante. Mas enfim, quem avisa amigo é.

Batendo um papo com o Grilo Falante, ele me disse que João era primo do Pinóquio. Pelo amor de Deus, nem assim se aprende que mentir é. É feio e ainda põe quem se gosta na barriga de uma baleia. Aquele papo de fumar, beber até cair, sair pra bagunça e virar burro, se lembram? No fim que ninguém te contou, a fada Azul desfez o encanto de toda aquela galera que ficou relinchando... Eles viraram crianças bonitinhas novamente, mas ficaram muito muito nervosos. Resultado: a fada está respondendo um processo. Querem a diversão novamente com direito ao não uso das orelhas e rabo de equino. Até o Pinóquio, que nem menino de verdade queria mais ser, fumava um baseadinho e enchia a cara para fugir um pouco da realidade. A fada quase morre de desgosto. E os Setes Anões, hein? Sabia que os Sete Anões eram um só? Claro que eram, você quem não percebeu. Eu sou bipolar, mas o anão principal tinha múltiplas personalidades. Temos psicólogos aqui, ou você acha que é brincadeira inspirar vocês? Vide o alterego Dunga, que com aquela cara de bobo, andar dez pras duas, se fez muito de retardado pra que a Branca de Neve desse a ele atenção especial. O Soneca era a fase que só dorme, vive bocejando para se esquivar dos assuntos importantes do lar e não ajuda ninguém a arrumar a casa. O Zangado quebra tudo e gosta de ser estúpido até mesmo quando a Branca de Neve é carinhosa com ele – na verdade ele é meio sádico. Esta tríplice é a mais memorável, não é? Pois eu dou uma maçã para quem adivinhar como ele se suicidou quando a Branca se encheu o saco de ser empregada dele e pagar a conta da cabana sozinha, porque ele trabalhava e comia como se fosse sete, mas queria pagar só a parte de um.

Por falar em maçã, a Bruxa da Branca de Neve é um derivado da Loba. Ela com aquela paranoia toda de ser a mais bela, etecetera e tal, jamais ia se transformar numa velha mendiga. Pasmem, a velha mendiga que levou a maçã era a vovozinha da Chapeuzinho Vermelho, vulgo mãe do João. A escrava miserável da Bruxa faz todas as maldades se for bem paga. Preciso dizer quem era aquele Caçador que tinha que levar a Branca à floresta e arrancar seu coração? Nem preciso! Claro, no fim ele não teve coragem de fazer isso, porque arrastava um bonde pela Branca. E voltou à sua vidinha de dar um trato na Bruxa de vez em quando... Ele era infeliz, mas ainda assim garantia a sua parte. Então, a mendiga era a mãe do Caçador e eles moravam de favor no Castelo da Bruxa. Eles podiam muito bem ter a vidinha simples, mas feliz (olha as chances que a vida dá). Mas não haveria ares de majestade valsando brilhantes. Credo! Parece que essa aí é infalível, vou te contar...

Agora, falando do mundo real, porque eu tenho esse dom de palmilhar por aqui e por alí: o que tem de gente que ainda assim prefere morder a maçã envenenada, não tá no gibi...É impressão minha ou os vilões ficam menos frustrados porque as pessoas não estão mais tão dispostas a combatê-los? E eles mantém suas maldades por muito mais tempo, não é? Até os amiguinhos da Dorothy estão tendo dificuldades em gerir as suas conquistas depois dos finais que vocês veem. O mundo moderno é tão esquisito (o leão deixou sua coragem escapar, o homem de lata enferrujou o próprio coração e o espantalho tem preguiça de pensar). Se um sorriso forjado já basta pra compor um engano, hoje as bruxas colocam silicone, ajeitam o nariz, aparam rugas, parcelam a progressiva, fazem as pazes com o espelho e postam fotos sensuais numa coisa chamada Facebook. Se isso bastasse, mas não. A gente não as vê direito. E eu achava melhor poder ver o feio como feio. Mas ainda há quem não creia em contos de fadas. São os que acham que é mais fácil olhar o lado conveniente que acompanha os vilões e tirar proveito também. As princesas começam a ficar cada vez mais avulsas, preferem experimentar vários príncipes e trocar de reino, sempre ocupadas estudando ou trabalhando e os príncipes preferem não correr o risco de casar com as mulheres que saibam ler, que vão questionar sobre porque chegaram de madrugada e que vão ensiná-los a esfregar sua própria cueca. Isso é um prato cheio pra qualquer feiticeira má, mesmo que você seja a singela Cinderela e tenha todos os ratos e passarinhos a seu favor. Algumas princesas andam melhor a cavalo. Alguns príncipes cozinham melhor. Uns optam pela bruxa e deixam a princesa na torre. E outros ainda, acreditam no golpe do baú não na moral da história. Outras já cortam o caminho com o Caçador mesmo. Agora também tem príncipe com príncipe e princesa com princesa... Mas sinceramente, eu queria mesmo é saber qual o propósito do aumento de glúteo masculino. Eles põem uma bexiga dura por trás do músculo, e... Bom, deixa pra lá. Talvez isso os impeça de galopar nos moldes tradicionais dos cavaleiros.

É curioso como os contos de fadas evoluem bastante, já ouvi dizer que transbordam para o mundo real. Eu não duvido não. Vejo cópias da Rainha de Copas gritando “Cortem-lhe a cabeça!”. É horripilante. Me parece que aí nessa Terra do Nunca, nunca tem jeito pra nada. E eu duvido que você não conheça muitos destes personagens em carne e osso. Eu só acho que as pessoas deviam dar mais atenção aos contos de fadas. Efeito colateral? Acho que as pessoas pararam de acreditar nos finais felizes e nas pessoas certas. Eu acho que cada um acredita no que quer, constrói o que pode e admite o que convém. Bem, eu confesso que não tenho certeza, porque a lagarta ainda me pergunta: “Quem és tu?”.

Com amor, Alice. Direto do País das Maravilhas.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

ADAM SANDLER no Brasil?


Preparem-se, o Adam vem aí! Vem aqui ao Brasil? Eu ouvi dizer que sim, mas acho que não...
Quem sabe? Bem que ele podia vir divulgar por aqui o novo filme "Esposa de Mentirinha", estrelado também pela Jennifer Aniston (Just Go With It).
Vem, Adam, vem! Seja como for, fica aqui o apelo.
O Adam vem aí em novo filme, o que é sempre muito muito agradável! Produzido pela produtora deste fera, a Happy Madison. A estreia está prevista para maio, mas já rolam trailers na internet.
O site do Terra Cinema traz um breve resumo desta nova empreitada: Adam é um rapaz que finge ser casado por comprovar que este fato atrai garotas (na filosofia dele, mostrar que é um cara que está metido num péssimo casamento atrai a compaixão das mulheres - bobas nós, né?).
Mas, enfim ele encontra alguém especial (a "mocinha" ou "heroina" - olha o veneno) que mostra que "cara casado não rola". Ele terá que pedir a sua amiga que finja ser a esposa da qual ele está se separando. Sorte dele que não era casado mesmo.
Sua estrela na calçada da fama foi celebrada há poucas semanas em Los Angeles. Na minha opinião, demoraram...

Recomendo todos os seus filmes, sem exceção, com atenção especial para "Um faz de conta que acontece" (da foto acima), "Reine sobre mim" - não é comédia, "Gente Grande" - fabuloso - me deu saudades de meus amigos de infância, "Como se fosse a primeira vez" - bom para namorados(as) sem criatividade ou apáticos(as), "A herança de Mr. Deeds" - uma delícia de filme e "O Click" - uma lição de vida com humor e sensibilidade.
Adam é uma figura singular, seus personagens mais marcantes são dóceis e coração mole. A foto acima, do guarda-chuva, denota a eterna criança crescida e as delícias que ele concretiza para nós, marmanjos saudosistas e imaginativos. Espero que ele tenha a sobriedade e saúde de protagonizar ainda muitas maravilhas no cinema.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Fazendo pipoca

Cada sentimento que conhecemos é universal, porém rompendo no indivíduo como ser único e não passível de pirataria, é intransferível. Quem não passa pelo fogo, não é mesmo?

Rubem Alves é, em verdade, um gênio. Este texto é um tesouro, uma benção, as vezes, ideias assim me cheiram a milagres. Seu semblante ameno e sereno me vem a mente toda vez em que estouro pipocas. Engraçado... Não, não é engraçado.




A culinária me fascina. De vez em quando eu até me até atrevo a cozinhar. Mas o fato é que sou mais competente com as palavras do que com as panelas.

Por isso tenho mais escrito sobre comidas que cozinhado. Dedico-me a algo que poderia ter o nome de "culinária literária". Já escrevi sobre as mais variadas entidades do mundo da cozinha: cebolas, ora-pro-nobis, picadinho de carne com tomate feijão e arroz, bacalhoada, suflês, sopas, churrascos.

Cheguei mesmo a dedicar metade de um livro poético-filosófico a uma meditação sobre o filme A Festa de Babette que é uma celebração da comida como ritual de feitiçaria. Sabedor das minhas limitações e competências, nunca escrevi como chef. Escrevi como filósofo, poeta, psicanalista e teólogo — porque a culinária estimula todas essas funções do pensamento.

As comidas, para mim, são entidades oníricas.

Provocam a minha capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretanto, que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu.

A pipoca, milho mirrado, grãos redondos e duros, me pareceu uma simples molecagem, brincadeira deliciosa, sem dimensões metafísicas ou psicanalíticas. Entretanto, dias atrás, conversando com uma paciente, ela mencionou a pipoca. E algo inesperado na minha mente aconteceu. Minhas idéias começaram a estourar como pipoca. Percebi, então, a relação metafórica entre a pipoca e o ato de pensar. Um bom pensamento nasce como uma pipoca que estoura, de forma inesperada e imprevisível.

A pipoca se revelou a mim, então, como um extraordinário objeto poético. Poético porque, ao pensar nelas, as pipocas, meu pensamento se pôs a dar estouros e pulos como aqueles das pipocas dentro de uma panela. Lembrei-me do sentido religioso da pipoca. A pipoca tem sentido religioso? Pois tem.

Para os cristãos, religiosos são o pão e o vinho, que simbolizam o corpo e o sangue de Cristo, a mistura de vida e alegria (porque vida, só vida, sem alegria, não é vida...). Pão e vinho devem ser bebidos juntos. Vida e alegria devem existir juntas.

Lembrei-me, então, de lição que aprendi com a Mãe Stella, sábia poderosa do Candomblé baiano: que a pipoca é a comida sagrada do Candomblé...

A pipoca é um milho mirrado, subdesenvolvido.

Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a idéia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos.

Havendo fracassado a experiência com água, tentou a gordura. O que aconteceu, ninguém jamais poderia ter imaginado.

Repentinamente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebra-dentes se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer. O estouro das pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária, em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, especialmente as crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas!

E o que é que isso tem a ver com o Candomblé? É que a transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa — voltar a ser crianças! Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo.

Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.

Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.

Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão — sofrimentos cujas causas ignoramos.Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.

Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: PUF!! — e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante.

Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está representado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o estouro do milho de pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro.

"Morre e transforma-te!" — dizia Goethe.

Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas, descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar.

Meu amigo William, extraordinário professor pesquisador da Unicamp, especializou-se em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com certeza ele tem uma explicação científica para os piruás. Mas, no mundo da poesia, as explicações científicas não valem.

Por exemplo: em Minas "piruá" é o nome que se dá às mulheres que não conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta, lamentava: "Fiquei piruá!" Mas acho que o poder metafórico dos piruás é maior.

Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem.

Ignoram o dito de Jesus: "Quem preservar a sua vida perdê-la-á".A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo a panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo.

Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira...

"Nunca imaginei que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu".

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Lançamento do Livro do Lázaro


Foi uma honra e uma oportunidade inenarrável para mim conhecer, mesmo que rapidamente, o ilustre polivalente Lázaro Ramos. Mais honra ainda é participar como autora, assim como ele, do Projeto Tela e Papel da Editora Uirapuru.

Embaixador da Unicef, cultural e socialmente engajado e, como todos já sabem, um grande talento. Ator de novela, de cinema, escritor e uma simpatia de pessoa. Sorriso largo e olhar firme.

"A Velha Sentada" traz a personagem Edith diante de um dilema existencial. Recomendada leitura para adultos e crianças, a partir da qual nos lembramos da importância do brincar, do lúdico e da identidade.
A obra me permitiu reflitir sobre a infância cibernética, sobre a adolescência virtual, limitada pela ilimitada internet. Me fez parar e pensar nos gigabytes como energia que nos poupa a energia corporal, assim como os atualmente imprescindíveis downloads. Me trouxe um saudosismo quanto os meus vários carrinhos de rolimã, minhas pipas e as tardes partindo os joelhos por ai. Penso o quanto a tecnologia realmente nos achata os glúteos.

Links relacionados por aí:

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Faça parte de algo MAIOR.

Conheci o projeto Amigos das Crianças Casa do PAC este ano, fica em Pirituba, numa rua paralela à Avenida Mutinga, conhecida avenida da Zona Oeste. A Casa do PAC é um abrigo. Para lá vão algumas crianças recolhidas de seus lares ou da rua, pelo Conselho Tutelar, aquelas que sofreram dos mais variados tipos de agressão (física, moral, sexual, etc), maus-tratos e abandono. Outras estão lá porque seus progenitores não tiveram condições financeiras de criá-las. As histórias são diversas. Umas mais dramáticas, outras mais revoltantes, outras solucionáveis... Mas o que importa são os olhares cheio de esperanças. São irmãos e irmãs consaguíneos que encaram uma dura realidade: ora juntos, por vezes separados em abrigos distintos, mas que só poderão ter uma família caso alguém esteja disposto a amar todos eles (às vezes são 2, 3, 5 crianças em diferentes faixas etárias). É filho único ou filho entre dezenas, filhos de alguém que não se conhece, filhos de alguém de quem seria melhor jamais lembrar, filhos de ninguém. E assim crescem, com amor e carinho das "tias" entre as trocas de plantões. Com um pouco mais de dignidade, com apoio escolar, psicológico, com respeito às suas necessidades básicas, com afeto e reconhecimento a sua individualidade. Com direito a comemorar o aniversário, a brincar, passear, ir ao cinema vez em quando, praticar esportes, receber um abraço quente e um cobertor na hora de dormir, a ser chamado por seu nome. Aprendendo a respeitar os colegas, a se tornar independente, auxiliando nos afazeres da casa. Se você parar para pensar, são filhos de um serviço. Filhos de um serviço social. Muitas destas crianças já estão liberadas para adoção. Você pode imaginar que tem pais adotivos que escolhem uma criança e meses depois esta criança é devolvida pelos motivos mais medíocres que se pode imaginar? Motivos do tipo: ele quebrou meu vaso, mordeu o cachorro, não fica quieto um minuto. Mais uma rejeição, mais um abrigo diferente, mais uma incerteza do destino, mais uma história traumática para um coração pequenino absorver. E daí, não é mesmo? "Se os pais não quiseram, porque eles tem que querer?" Sem citar, é claro, as atrocidades às quais estão sujeitas a passar. Eu conheci uma assistente social num curso de Direitos Humanos, e ela contou ter denunciado um abrigo em que as crianças confidenciaram a ela que sofriam abusos sexuais dos funcionários. Ela fazia um estágio e ao questionar a psicóloga que chefiava o local, foi gravemente ameaçada porque estava denegrindo a gestão desta pobre senhora. Pobre mesmo. Pobre de tudo. E bem feito pra ela, que foi denunciada pela coragem da moça, ao Conselho Tutelar. É uma pena que não arrebentaram-lhe a fuça, porque incitando ou não a violência, ela mais do que merecia. A vulnerabilidade destas crianças assusta. A nossa impotência frente às situações que elas já enfrentaram e enfrentarão, assustam igualmente. A sorte é que podemos doar algo nosso. Podemos interferir, colaborar, sermos construtivos. Podemos ajudar a prolongar os sorrisos, fazendo pouco ou muito - não importa o tanto. E eu venho recomendar a Casa do PAC para quem quer fazer algo. E também peço que postem aqui suas experiências e indicações, caso conheçam abrigos ou instituições que nos permitam colaborar.
A criança que recebe um amparo hoje, talvez seja aquela que poderia mas não vai se tornar um mendigo, um deliquente ou uma grave ameaça contra você e os seus queridos amanhã. A ideia é diminuir o sofrimento até enfraquecê-lo completamente. Seja padrinho ou madrinha de uma criança, visite um abrigo, dê um pouco de afeto a quem precisa, compartilhe seus dons, faça uma mágica, conte uma história, fique em silêncio com elas, ouça. Você ganhará muito com elas, pode apostar. Assim como elas ganharão com você. Perdemos tempo e energia muitas vezes tentando, exaustivamente, cativar o afeto em relações superficiais e apenas convenientes, no nosso dia-a-dia. Somos obrigados a sorrir, a fazer reverências, a adotar uma gastura de simpatia para sermos aceitos, seja no trabalho, em casa, com os amigos, parceiros e exigimos isso em troca dos outros. Quer provocar um sorriso de verdade? Quer um abraço sincero, um olhar singelo, quer fazer o bem da forma mais pura? Tem muita gente que não faz questão de você, mas tem muito mais gente que não apenas faz questão como também precisa muito mais de você do que você pode imaginar. Por isso, ame quem quer ser amado, deixe alguém gostar de você de forma legítima, faça a diferença. E se você quiser uma troca de energia de verdade, se permita deixar conduzir pela mão de uma criança que teve muito menos oportunidade do que você tem de ser amado. Essa troca é uma das lições mais significantes que carrego no peito, junto com o brilho no olhar de muitas delas.
Se você quer saber mais sobre a Casa do PAC, acesse aqui: http://www.blog.projetopac.org.br/