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sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

O cachorro

Como é que se conduz um rato no labirinto? O que é que se espera dele? Que ele ache a saída ou que fique por lá tempo suficiente para que proporcione expectativa, emoção, vibração? Havia uma grande caixa labiríntica e um rato posto ali desde sempre. O rato era de um otimismo infalível e um faro completamente aguçado por qualquer resquício que escapasse das fendas de tudo o que ainda não havia decodificado. Ele podia fazer com que adormecesse o gato, tamanha era sua paixão e envolvimento por tudo que o rodeava. E eventualmente, era isso que o rato acabava fazendo, mesmo que cedo ou tarde o gato acordasse. E então, naturalmente, o labirinto era sua maior obsessão. E este pronome possessivo coube aqui para ambos, porque nem citei o sujeito. Para o rato, o labirinto era uma glória dentro da outra, era tudo o que ele podia amar, era tudo onde ele podia ser. Ele parecia arrogante para o gato, simplesmente por se dar tão bem naquele cubículo infinito. Tudo aquilo era apenas um recurso para mantê-lo ocupado, para que todos os seus porquês se dissolvessem sem que necessitasse exercitar sua massa encefálica, muscular e etérea. A saída não metia medo em ninguém. E em tempo, ali estava o rato confinado para que fosse minada a sua grandessíssima inconveniência, sua presença insignificante e sua herança biológica. Nada tinha ele a compartilhar, segundo as resoluções pessoais do gato. E o gato achava aquela segurança do rato uma lancinante ignorância arrogante e feliz, de quem ignora a amplitude do que lhe fora tolhido. O roedor já estava, de fato, educado pela brutal arrogância do labirinto. Totalmente vulnerável, nem um pouco seguro, mas sob controle (caixas tem paredes). O pequeno mascote poderia ter se tornado mais do que previsível para aquele que o observaria do alto, dentro de possibilidades cerceadas meticulosamente. Por alguns momentos parecia quase uma perda de tempo monitorá-lo. "Entediante" diria o gato com ironia deslavada, se também pudesse não apenas miar. Mas eis, a pura e dilacerante realidade é que o rato conseguia saber mais do que claramente, com mais nitidez do que o outro, o que havia lá fora do labirinto do qual se tornara prisioneiro. “Como ele pôde?” filosofaria o gato, se tivesse entendido mais profundamente essa coisa que percebeu sem o lume do esclarecimento. Incômoda é a perspicácia do outro, deselegante de tão vivaz, traço que ele adquiriu por si só. E algo no gato, a parte dele mesmo, diria para si: "tu que és Tu, jamais habitaste aquela caixa nem um pouco lúdica". O rato não é um típico provedor, manipulador, como esta posto o gato, senão da sua própria sede de viver de algum modo. O gato adora colocar defeitos nos passos do rato, diverte-se com todo tipo de intercorrências, porém jamais intercede criando algum benefício. Qual atuação te parece mais interessante, mesmo que menos digna? Te direi que embora o grande critique e subjugue o menor, em nada, sequer numa reles lambida, ele é mais feliz que o incansável caçador de caminhos. O menor o cativa, assim que possa ser observado, ali está para entretê-lo. E o gato acha o rato repetidamente arrogante, e ele de fato o é. O rato é o "sabe nada" que mais sabe tudo, de tudo e entre os dois. Supera o gato em todas as perspectivas. Ele fez do labirinto um mundo, enquanto o gato fez do mundo seu labirinto. O rato só é pura e verdadeiramente mais uma vez arrogante quando o gato se lembra de ser gato e, lá no fundo, tenta desmentir para si mesmo o quanto mais burro ele tem "quase" certeza de que é. Eu de onde estou, óbvio, não tenho dúvidas.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

O disfarce é de quem?

Pense na vida terrestre, a vida cotidiana, material, aquela que você
vive quando acorda de manhã até a hora de dormir. A nossa vida em família e amigos, a compra matinal do pão, o percurso do trem, o esforço na academia, o passeio despreocupado no shopping, sabe? Consegue vê-la como um videoclipe?

Apropriado ou não, vou dizer: eu acho que existem anjos disfarçados de pessoas. É sério!

E acho que estão compartilhando desta vida tão concreta, palpável, conosco. Aliás, acho que elas carregam um lote do nosso fardo diário, aliviando nossa carga, ajudando a abrir os trincos das portas enquanto estamos com os braços ocupados com sacolas (o que tem nelas?) ou quando não estão lá, ajudando na profilaxia das calejadas feridas.

E estas pessoas nem sequer sabem que são anjos, embora intimamente imagino que carreguem uma saudade crepitante dos seus iguais. Também acho que nem sempre alguém pare para elas. É triste como geralmente, ninguém pára para ninguém, a não ser que compense (sempre há uma forma de compensação).

Ninguém pára para o ato mais intenso que eu conheço no mundo (mais fervilhante que o sexo, mais que relaxante que a vitória, não necessariamente nesta ordem) para mergulhar em seus olhos, para olhar pra elas com verdade e silêncio. Contemplá-las.

Talvez eles sofram por não encontrarem a reciprocidade, por nem sempre conseguirem dar volume ao som de sua voz, de suas boas resoluções, talvez sejam as pessoas mais reluzentes, motivadoras e mais animadas que você conhece. Talvez sejam as pessoas mais inconsoláveis, mais enérgicas, mais rigidas e radicais, menos tolerantes com certas atuações ou coisas. Podem trazer a mistura de tudo isso junto? Sim, eu creio que sim.

Seriam dóceis e tristes tais olhos ou de uma felicidade tão profunda que não é possível adjetivá-la, traduzí-la, compreendê-la?
Não sei. Pare! Pare de apreender as coisas na teoria, de pescar o resumo de uma experiência. Eu peço por eles, que pare ao menos uma vez e dê a você a oportunidade de perceber por si mesmo, de permitir que eles sintam a recompensa de serem reconhecidos.

Que cada um responda por nós todos. Não deve ser fácil viver entre humanos, deve dolorir o calcanhar, o pescoço, os dedos que se esticam para auxiliar, deve provocar lágrimas silenciosas...

Viver entre a gente da gente que se olha, mas não enxerga: por dentro de si, por dentro dos outros. Estes anjos devem ser daquelas pessoas que parecem distantes, aquelas que você nunca lembra de convidar para coisas bacanas, mas que não esquece de procurar nas aflições. Aquelas que estão em algum lugar por aí. Aquelas que às vezes são caretas demais ou se destacam demais entre os amigos (e por isso é melhor que fiquem anônimas no seu círculo social), numa festa ou que são tão destrambelhadas que se arriscam demais por pequenas coisas ou porque precisam ser apenas o que são e isto tem um preço. Talvez você até inveje tal pessoa.

Talvez não tenham medo do incomum e fiquem horrorizadas com o comum, talvez desmitisfiquem algumas convenções sociais, às vezes coloquem sua consciência acima das regras e regras acima das formalidades legítimas da sociedade e da lei. Aposto que chocam, tanto quanto encantam. E amparam, e apaziguam e incendeiam. Será que são aquelas que reaparecem de vez em quando e fazem pontes entre coisas que te servem, sem pedir nada em troca? Acho que são. Talvez você tenha até se esquecido de agradecê-las ou perguntou estavam bem de modo tão superficial que nem se lembra da resposta. Talvez se dêem o trabalho que nem sempre as pessoas mais paparicadas por você, no seu dia-a-dia se dão...

Se puderem, talvez se lembrem de você por coisas que você mesmo esqueceu que era, que fez ou que gostava de fazer. Talvez te rasgatem daquele momento em que você deixou de ser você, para ser o que é superficialmente conveniente. E vai ver que até reza por aquelas pessoas tão queridas que pegam no sono antes mesmo de se deitarem. E estas deitam e dormem de tanta retaguarda subjetiva que lhes é ofertada.

Do que estarão disfarçados? De pessoas. De grandes amigos. E geralmente estão postos assim, meio de lado, porque você não pode diluí-los na sua nova galera, porque você não sabe repartir. Um simples conhecido? Um colega de faculdade? Um idoso, uma criança, um parente querido? Um companheiro de poltrona de avião? Um recepcionista, um jornaleiro? Um estranho na fila do banco, que lhe entregue apenas um sorriso, uma palavra certa, uma faísca de ideia, um gesto que lhe envolva como uma bolha de oxigênio em momentos de engasgos sufocantes. Estas bolhas são genuínas doses da centelha criadora. Eles são tão poderosos que parecem naturalmente inclinados a pequenos gestos vigorosamente instigantes.

Quem sabe você nunca chegue a ter conhecimento da totalidade de suas ações, mas morda os frutos. E destes frutos, espera-se que no mínimo seja possível saborear nitidamente uma lembrança ofuscada. Quem sabe, quem sabe... Recobrar os anjos que acenaram para ti. Por aqui, por ali, por ai estão eles. E parecem não se acomodar definitivamente nunca. Cuide para que eles não passem sem que VOCÊ crie a chance de, ao menos, abraçá-los.



imagem: http://raulmarinhog.wordpress.com/2008/10/30/altruismo-reciproco-voce-sa/

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Os contos modernos, sem fadas.

Eu gosto de estórias porque são mágicas e tem uma plasticidade inacreditável. O nosso mundo das criaturas de fadas é tão mutável, tanto como o ser humano também é. A realidade é que viver é algo para os loucos. “E nós somos todos loucos por aqui”, segundo o Mestre Gato. Vocês por aí não seriam mais loucos e nós frutos de vocês? E como a história nunca é a mesma, tenho notícias bem malucas para contar pra vocês.

Soube que o Lobo Mau paga o aluguel e visita, quase todas as tardes, a casa dos Três Porquinhos. Eles tomam juntos, cheios de formalidades, o chá da tarde e partilham o pão que o diabo amassou. A verdadeira versão é que os Três Porquinhos não iam se dar o trabalho de construir suas casinhas, e então, fizeram um acordo. Com ninguém menos que a sua maior ameaça! Aliás, com a Loba... Foi o que eu soube e juro ser verdade. Ele é ela, o lobo. Pra fazer um acordo tão cheio de fel só podia ser uma fêmea sedenta de amor, bizarramente apaixonada por um dos porquinhos, é claro! Onde já se viu, duas espécies completamente diferentes numa junção carnal? Sim, porque a Loba Mau é uma autêntica coroa cansada de fazer papéis secundários. E o porquinho do meio não nega o espírito de porco. A velha fábula na versão original já dizia: construa a sua casa – ela pode ser simples e ter dado um trabalhão, mas é melhor do que ser refém do Lobo. A Loba, que é velha de guerra, já morria de inveja da Chapeuzinho Vermelho na outra história. A menina era esbelta, com a pele sem manchas e o Caçador era louco por ela. Mas, quem diria que o Caçador curtia uma bagunça “de leve” e a Loba, muito puta da vida, sabia que era só a diversão do Caçador. Como a Chapeuzinho era uma tonta! O Caçador foi seu primeiro amor e passava o maior discurso na pobrezinha. Na verdade, ele já tinha experimentado a maioria das suas coleguinhas da aldeia. Então, a menina apaixonada levava os doces para a avó do Caçador, que na realidade era uma trambiqueira de mão cheia. A Loba prometeu jogar tranca com a velhota, prover a sua geladeira com carne de primeira (coisa que o médico tinha proibido a Chapeuzinho de levar) e garantiu a compra dos remédios que amenizassem a dor daquele corpo prostituto. Combinaram que um engoliria a outra sem mastigar, para por a Chapeuzinho Vermelho numa fria. Claro, a culpa de tudo era da menina ingênua de gorrinho cor da paixão. Foi ela quem cedeu a insistência da Loba e foi pelo caminho indicado sem grandes alternativas. No fim deu tudo certo? Quem não tem boa intenção gosta sempre de induzir as pessoas ao erro. A Loba escapou pra outra história. Mais uma lição: não se meta com um Caçadores promíscuos. Se eles se importassem com alguém não manteriam nenhum tipo de relações com Lobas que possam engolir quem mais amam. Desconfie da mulher que o criou, ela pode ser uma velhinha do cifre furado e ainda terminar a história com uma cara de vítima do holocausto, de olhinhos condescendentes.

Eu conheci pessoalmente o João, aquele João do Pé de Feijão. Sabia que ele se arrependeu de roubar a Galinha dos ovos de ouro? Eles tiveram um caso de amor por longos anos, mesmo o João sabendo que havia roubado o gigante e podia ser esmagado a qualquer momento. Mas a mãe do João, quem nem nome tem na história, era tão pobrezinha, de espírito e de moral, que preferiu arriscar a vida do próprio filho. E ela não deu bronca no João por causa do roubo da galinha, não! Ela queria mais é vender os ovos, comprar roupas de marca, se empanturrar de comida. Claro, que o cú da Galinha não é de ferro e não demorou muito ela logo tratou de ciscar por outras bandas. Tinha enjoado do João (ele engordou o que não tinha engordado no conto de João e Maria, ficando cheio de estrias). Enjoou também da sogra tirana que queria um ovo após o outro, e foi arranjar um galo. Tinha que ser um galo novo, claro, um galo rapazote. Se o galo descobre que a galinha ainda põe uns ovos pro João, ele enforca o João no Pé de Feijão. Convenhamos que a galinha não é imortal, fato que está com tudo frouxo, né? Melhor ter um ovo frito na mão dos que seus dois ovos pendurados... Ainda mais pelo galo que não tem nada a ver com isso, pois na verdade, o ouro pertence ao gigante. Mas enfim, quem avisa amigo é.

Batendo um papo com o Grilo Falante, ele me disse que João era primo do Pinóquio. Pelo amor de Deus, nem assim se aprende que mentir é. É feio e ainda põe quem se gosta na barriga de uma baleia. Aquele papo de fumar, beber até cair, sair pra bagunça e virar burro, se lembram? No fim que ninguém te contou, a fada Azul desfez o encanto de toda aquela galera que ficou relinchando... Eles viraram crianças bonitinhas novamente, mas ficaram muito muito nervosos. Resultado: a fada está respondendo um processo. Querem a diversão novamente com direito ao não uso das orelhas e rabo de equino. Até o Pinóquio, que nem menino de verdade queria mais ser, fumava um baseadinho e enchia a cara para fugir um pouco da realidade. A fada quase morre de desgosto. E os Setes Anões, hein? Sabia que os Sete Anões eram um só? Claro que eram, você quem não percebeu. Eu sou bipolar, mas o anão principal tinha múltiplas personalidades. Temos psicólogos aqui, ou você acha que é brincadeira inspirar vocês? Vide o alterego Dunga, que com aquela cara de bobo, andar dez pras duas, se fez muito de retardado pra que a Branca de Neve desse a ele atenção especial. O Soneca era a fase que só dorme, vive bocejando para se esquivar dos assuntos importantes do lar e não ajuda ninguém a arrumar a casa. O Zangado quebra tudo e gosta de ser estúpido até mesmo quando a Branca de Neve é carinhosa com ele – na verdade ele é meio sádico. Esta tríplice é a mais memorável, não é? Pois eu dou uma maçã para quem adivinhar como ele se suicidou quando a Branca se encheu o saco de ser empregada dele e pagar a conta da cabana sozinha, porque ele trabalhava e comia como se fosse sete, mas queria pagar só a parte de um.

Por falar em maçã, a Bruxa da Branca de Neve é um derivado da Loba. Ela com aquela paranoia toda de ser a mais bela, etecetera e tal, jamais ia se transformar numa velha mendiga. Pasmem, a velha mendiga que levou a maçã era a vovozinha da Chapeuzinho Vermelho, vulgo mãe do João. A escrava miserável da Bruxa faz todas as maldades se for bem paga. Preciso dizer quem era aquele Caçador que tinha que levar a Branca à floresta e arrancar seu coração? Nem preciso! Claro, no fim ele não teve coragem de fazer isso, porque arrastava um bonde pela Branca. E voltou à sua vidinha de dar um trato na Bruxa de vez em quando... Ele era infeliz, mas ainda assim garantia a sua parte. Então, a mendiga era a mãe do Caçador e eles moravam de favor no Castelo da Bruxa. Eles podiam muito bem ter a vidinha simples, mas feliz (olha as chances que a vida dá). Mas não haveria ares de majestade valsando brilhantes. Credo! Parece que essa aí é infalível, vou te contar...

Agora, falando do mundo real, porque eu tenho esse dom de palmilhar por aqui e por alí: o que tem de gente que ainda assim prefere morder a maçã envenenada, não tá no gibi...É impressão minha ou os vilões ficam menos frustrados porque as pessoas não estão mais tão dispostas a combatê-los? E eles mantém suas maldades por muito mais tempo, não é? Até os amiguinhos da Dorothy estão tendo dificuldades em gerir as suas conquistas depois dos finais que vocês veem. O mundo moderno é tão esquisito (o leão deixou sua coragem escapar, o homem de lata enferrujou o próprio coração e o espantalho tem preguiça de pensar). Se um sorriso forjado já basta pra compor um engano, hoje as bruxas colocam silicone, ajeitam o nariz, aparam rugas, parcelam a progressiva, fazem as pazes com o espelho e postam fotos sensuais numa coisa chamada Facebook. Se isso bastasse, mas não. A gente não as vê direito. E eu achava melhor poder ver o feio como feio. Mas ainda há quem não creia em contos de fadas. São os que acham que é mais fácil olhar o lado conveniente que acompanha os vilões e tirar proveito também. As princesas começam a ficar cada vez mais avulsas, preferem experimentar vários príncipes e trocar de reino, sempre ocupadas estudando ou trabalhando e os príncipes preferem não correr o risco de casar com as mulheres que saibam ler, que vão questionar sobre porque chegaram de madrugada e que vão ensiná-los a esfregar sua própria cueca. Isso é um prato cheio pra qualquer feiticeira má, mesmo que você seja a singela Cinderela e tenha todos os ratos e passarinhos a seu favor. Algumas princesas andam melhor a cavalo. Alguns príncipes cozinham melhor. Uns optam pela bruxa e deixam a princesa na torre. E outros ainda, acreditam no golpe do baú não na moral da história. Outras já cortam o caminho com o Caçador mesmo. Agora também tem príncipe com príncipe e princesa com princesa... Mas sinceramente, eu queria mesmo é saber qual o propósito do aumento de glúteo masculino. Eles põem uma bexiga dura por trás do músculo, e... Bom, deixa pra lá. Talvez isso os impeça de galopar nos moldes tradicionais dos cavaleiros.

É curioso como os contos de fadas evoluem bastante, já ouvi dizer que transbordam para o mundo real. Eu não duvido não. Vejo cópias da Rainha de Copas gritando “Cortem-lhe a cabeça!”. É horripilante. Me parece que aí nessa Terra do Nunca, nunca tem jeito pra nada. E eu duvido que você não conheça muitos destes personagens em carne e osso. Eu só acho que as pessoas deviam dar mais atenção aos contos de fadas. Efeito colateral? Acho que as pessoas pararam de acreditar nos finais felizes e nas pessoas certas. Eu acho que cada um acredita no que quer, constrói o que pode e admite o que convém. Bem, eu confesso que não tenho certeza, porque a lagarta ainda me pergunta: “Quem és tu?”.

Com amor, Alice. Direto do País das Maravilhas.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

ADAM SANDLER no Brasil?


Preparem-se, o Adam vem aí! Vem aqui ao Brasil? Eu ouvi dizer que sim, mas acho que não...
Quem sabe? Bem que ele podia vir divulgar por aqui o novo filme "Esposa de Mentirinha", estrelado também pela Jennifer Aniston (Just Go With It).
Vem, Adam, vem! Seja como for, fica aqui o apelo.
O Adam vem aí em novo filme, o que é sempre muito muito agradável! Produzido pela produtora deste fera, a Happy Madison. A estreia está prevista para maio, mas já rolam trailers na internet.
O site do Terra Cinema traz um breve resumo desta nova empreitada: Adam é um rapaz que finge ser casado por comprovar que este fato atrai garotas (na filosofia dele, mostrar que é um cara que está metido num péssimo casamento atrai a compaixão das mulheres - bobas nós, né?).
Mas, enfim ele encontra alguém especial (a "mocinha" ou "heroina" - olha o veneno) que mostra que "cara casado não rola". Ele terá que pedir a sua amiga que finja ser a esposa da qual ele está se separando. Sorte dele que não era casado mesmo.
Sua estrela na calçada da fama foi celebrada há poucas semanas em Los Angeles. Na minha opinião, demoraram...

Recomendo todos os seus filmes, sem exceção, com atenção especial para "Um faz de conta que acontece" (da foto acima), "Reine sobre mim" - não é comédia, "Gente Grande" - fabuloso - me deu saudades de meus amigos de infância, "Como se fosse a primeira vez" - bom para namorados(as) sem criatividade ou apáticos(as), "A herança de Mr. Deeds" - uma delícia de filme e "O Click" - uma lição de vida com humor e sensibilidade.
Adam é uma figura singular, seus personagens mais marcantes são dóceis e coração mole. A foto acima, do guarda-chuva, denota a eterna criança crescida e as delícias que ele concretiza para nós, marmanjos saudosistas e imaginativos. Espero que ele tenha a sobriedade e saúde de protagonizar ainda muitas maravilhas no cinema.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Fazendo pipoca

Cada sentimento que conhecemos é universal, porém rompendo no indivíduo como ser único e não passível de pirataria, é intransferível. Quem não passa pelo fogo, não é mesmo?

Rubem Alves é, em verdade, um gênio. Este texto é um tesouro, uma benção, as vezes, ideias assim me cheiram a milagres. Seu semblante ameno e sereno me vem a mente toda vez em que estouro pipocas. Engraçado... Não, não é engraçado.




A culinária me fascina. De vez em quando eu até me até atrevo a cozinhar. Mas o fato é que sou mais competente com as palavras do que com as panelas.

Por isso tenho mais escrito sobre comidas que cozinhado. Dedico-me a algo que poderia ter o nome de "culinária literária". Já escrevi sobre as mais variadas entidades do mundo da cozinha: cebolas, ora-pro-nobis, picadinho de carne com tomate feijão e arroz, bacalhoada, suflês, sopas, churrascos.

Cheguei mesmo a dedicar metade de um livro poético-filosófico a uma meditação sobre o filme A Festa de Babette que é uma celebração da comida como ritual de feitiçaria. Sabedor das minhas limitações e competências, nunca escrevi como chef. Escrevi como filósofo, poeta, psicanalista e teólogo — porque a culinária estimula todas essas funções do pensamento.

As comidas, para mim, são entidades oníricas.

Provocam a minha capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretanto, que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu.

A pipoca, milho mirrado, grãos redondos e duros, me pareceu uma simples molecagem, brincadeira deliciosa, sem dimensões metafísicas ou psicanalíticas. Entretanto, dias atrás, conversando com uma paciente, ela mencionou a pipoca. E algo inesperado na minha mente aconteceu. Minhas idéias começaram a estourar como pipoca. Percebi, então, a relação metafórica entre a pipoca e o ato de pensar. Um bom pensamento nasce como uma pipoca que estoura, de forma inesperada e imprevisível.

A pipoca se revelou a mim, então, como um extraordinário objeto poético. Poético porque, ao pensar nelas, as pipocas, meu pensamento se pôs a dar estouros e pulos como aqueles das pipocas dentro de uma panela. Lembrei-me do sentido religioso da pipoca. A pipoca tem sentido religioso? Pois tem.

Para os cristãos, religiosos são o pão e o vinho, que simbolizam o corpo e o sangue de Cristo, a mistura de vida e alegria (porque vida, só vida, sem alegria, não é vida...). Pão e vinho devem ser bebidos juntos. Vida e alegria devem existir juntas.

Lembrei-me, então, de lição que aprendi com a Mãe Stella, sábia poderosa do Candomblé baiano: que a pipoca é a comida sagrada do Candomblé...

A pipoca é um milho mirrado, subdesenvolvido.

Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a idéia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos.

Havendo fracassado a experiência com água, tentou a gordura. O que aconteceu, ninguém jamais poderia ter imaginado.

Repentinamente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebra-dentes se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer. O estouro das pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária, em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, especialmente as crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas!

E o que é que isso tem a ver com o Candomblé? É que a transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa — voltar a ser crianças! Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo.

Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.

Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.

Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão — sofrimentos cujas causas ignoramos.Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.

Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: PUF!! — e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante.

Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está representado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o estouro do milho de pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro.

"Morre e transforma-te!" — dizia Goethe.

Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas, descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar.

Meu amigo William, extraordinário professor pesquisador da Unicamp, especializou-se em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com certeza ele tem uma explicação científica para os piruás. Mas, no mundo da poesia, as explicações científicas não valem.

Por exemplo: em Minas "piruá" é o nome que se dá às mulheres que não conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta, lamentava: "Fiquei piruá!" Mas acho que o poder metafórico dos piruás é maior.

Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem.

Ignoram o dito de Jesus: "Quem preservar a sua vida perdê-la-á".A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo a panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo.

Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira...

"Nunca imaginei que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu".

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Lançamento do Livro do Lázaro


Foi uma honra e uma oportunidade inenarrável para mim conhecer, mesmo que rapidamente, o ilustre polivalente Lázaro Ramos. Mais honra ainda é participar como autora, assim como ele, do Projeto Tela e Papel da Editora Uirapuru.

Embaixador da Unicef, cultural e socialmente engajado e, como todos já sabem, um grande talento. Ator de novela, de cinema, escritor e uma simpatia de pessoa. Sorriso largo e olhar firme.

"A Velha Sentada" traz a personagem Edith diante de um dilema existencial. Recomendada leitura para adultos e crianças, a partir da qual nos lembramos da importância do brincar, do lúdico e da identidade.
A obra me permitiu reflitir sobre a infância cibernética, sobre a adolescência virtual, limitada pela ilimitada internet. Me fez parar e pensar nos gigabytes como energia que nos poupa a energia corporal, assim como os atualmente imprescindíveis downloads. Me trouxe um saudosismo quanto os meus vários carrinhos de rolimã, minhas pipas e as tardes partindo os joelhos por ai. Penso o quanto a tecnologia realmente nos achata os glúteos.

Links relacionados por aí:

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Faça parte de algo MAIOR.

Conheci o projeto Amigos das Crianças Casa do PAC este ano, fica em Pirituba, numa rua paralela à Avenida Mutinga, conhecida avenida da Zona Oeste. A Casa do PAC é um abrigo. Para lá vão algumas crianças recolhidas de seus lares ou da rua, pelo Conselho Tutelar, aquelas que sofreram dos mais variados tipos de agressão (física, moral, sexual, etc), maus-tratos e abandono. Outras estão lá porque seus progenitores não tiveram condições financeiras de criá-las. As histórias são diversas. Umas mais dramáticas, outras mais revoltantes, outras solucionáveis... Mas o que importa são os olhares cheio de esperanças. São irmãos e irmãs consaguíneos que encaram uma dura realidade: ora juntos, por vezes separados em abrigos distintos, mas que só poderão ter uma família caso alguém esteja disposto a amar todos eles (às vezes são 2, 3, 5 crianças em diferentes faixas etárias). É filho único ou filho entre dezenas, filhos de alguém que não se conhece, filhos de alguém de quem seria melhor jamais lembrar, filhos de ninguém. E assim crescem, com amor e carinho das "tias" entre as trocas de plantões. Com um pouco mais de dignidade, com apoio escolar, psicológico, com respeito às suas necessidades básicas, com afeto e reconhecimento a sua individualidade. Com direito a comemorar o aniversário, a brincar, passear, ir ao cinema vez em quando, praticar esportes, receber um abraço quente e um cobertor na hora de dormir, a ser chamado por seu nome. Aprendendo a respeitar os colegas, a se tornar independente, auxiliando nos afazeres da casa. Se você parar para pensar, são filhos de um serviço. Filhos de um serviço social. Muitas destas crianças já estão liberadas para adoção. Você pode imaginar que tem pais adotivos que escolhem uma criança e meses depois esta criança é devolvida pelos motivos mais medíocres que se pode imaginar? Motivos do tipo: ele quebrou meu vaso, mordeu o cachorro, não fica quieto um minuto. Mais uma rejeição, mais um abrigo diferente, mais uma incerteza do destino, mais uma história traumática para um coração pequenino absorver. E daí, não é mesmo? "Se os pais não quiseram, porque eles tem que querer?" Sem citar, é claro, as atrocidades às quais estão sujeitas a passar. Eu conheci uma assistente social num curso de Direitos Humanos, e ela contou ter denunciado um abrigo em que as crianças confidenciaram a ela que sofriam abusos sexuais dos funcionários. Ela fazia um estágio e ao questionar a psicóloga que chefiava o local, foi gravemente ameaçada porque estava denegrindo a gestão desta pobre senhora. Pobre mesmo. Pobre de tudo. E bem feito pra ela, que foi denunciada pela coragem da moça, ao Conselho Tutelar. É uma pena que não arrebentaram-lhe a fuça, porque incitando ou não a violência, ela mais do que merecia. A vulnerabilidade destas crianças assusta. A nossa impotência frente às situações que elas já enfrentaram e enfrentarão, assustam igualmente. A sorte é que podemos doar algo nosso. Podemos interferir, colaborar, sermos construtivos. Podemos ajudar a prolongar os sorrisos, fazendo pouco ou muito - não importa o tanto. E eu venho recomendar a Casa do PAC para quem quer fazer algo. E também peço que postem aqui suas experiências e indicações, caso conheçam abrigos ou instituições que nos permitam colaborar.
A criança que recebe um amparo hoje, talvez seja aquela que poderia mas não vai se tornar um mendigo, um deliquente ou uma grave ameaça contra você e os seus queridos amanhã. A ideia é diminuir o sofrimento até enfraquecê-lo completamente. Seja padrinho ou madrinha de uma criança, visite um abrigo, dê um pouco de afeto a quem precisa, compartilhe seus dons, faça uma mágica, conte uma história, fique em silêncio com elas, ouça. Você ganhará muito com elas, pode apostar. Assim como elas ganharão com você. Perdemos tempo e energia muitas vezes tentando, exaustivamente, cativar o afeto em relações superficiais e apenas convenientes, no nosso dia-a-dia. Somos obrigados a sorrir, a fazer reverências, a adotar uma gastura de simpatia para sermos aceitos, seja no trabalho, em casa, com os amigos, parceiros e exigimos isso em troca dos outros. Quer provocar um sorriso de verdade? Quer um abraço sincero, um olhar singelo, quer fazer o bem da forma mais pura? Tem muita gente que não faz questão de você, mas tem muito mais gente que não apenas faz questão como também precisa muito mais de você do que você pode imaginar. Por isso, ame quem quer ser amado, deixe alguém gostar de você de forma legítima, faça a diferença. E se você quiser uma troca de energia de verdade, se permita deixar conduzir pela mão de uma criança que teve muito menos oportunidade do que você tem de ser amado. Essa troca é uma das lições mais significantes que carrego no peito, junto com o brilho no olhar de muitas delas.
Se você quer saber mais sobre a Casa do PAC, acesse aqui: http://www.blog.projetopac.org.br/

Viva a poesia, viva!

É com muito orgulho que compartilho aqui a vitória da poesia. Uma vitória deliciosa que se deu por meio das mãos de um talentoso poeta amigo. Ele estará na Bienal com o relançamento do seu livro "Necrose da Palavra" (lançado em 5 de maio de 2010, em SP).

21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo
17 de agosto, terça-feira, das 15h às 17h - Rua L Estande 44.

Exclusivamente neste dia e horário, você conhece o autor Welton de Souza (pode apostar que é um privilégio) e já pede o seu autógrafo!

Esta preciosidade (o livro, mas não o autógrafo) também está disponível para venda no site:
http://www.allprinteditora.com.br/

Entrevista com o autor em:
http://www.poetasdevidro.wordpress.com/

Claro que não poderia deixar de mencionar (haha) que você encontrará meus comentários de marciana na orelha do livro. Foi uma grande honra e surpresa para mim, assim claro, como uma peripécia do autor.

Comprove!

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Distância


Quando maior a distância
Melhor me sentes
E mais intensamente.

Há acréscimo de espaço
Disponível que aumenta
A cada passo
Por onde fica impregnada
A minha ausência.


Transfusão



Sentia o tilintar da cólera no estômago. Podia até ouvir o barulho que ela fazia. O espesso líquido amargo e viscoso a gotejar no estômago. Algo se contorceu dentro dela, tal como uma mistura de fome e enjôo. Fome da coisa que era, antes de estragar, suculenta. Enjôo porque a coisa já exalara o cheiro cadavérico da deterioração. Que adianta apontar culpados? Que adianta? "Alguém distraído vive tirando as coisas da geladeira e não as guarda." O rosto lhe fervia num rubor atordoante. Já fatigava a nuca, sentia a cabeça borbulhando, como se lhe tivessem arrancado o tampão de carne e cabelos da cabeça. Veias e tramas neurais ferventes estalavam ao chamuscar em brasa, dentro do caldeirão cerebral. Sentia o cheiro de churrasco queimado, churrasco de suas vísceras. Sabia tanto sobre si mesma, sabia remontar seus quebra-cabeças de modo a formar figuras mais magistrais que as anteriores. Mas aquela cólera... Aquela cólera a levava ao topo do mundo para atirar as peças ao rarefeito do espaço, de modo irrecuperável. Na verdade, ela desejava mesmo era se inclinar para cair infinitamente. Contrariando protocolos, sabia que seu estágio era justificável e natural, sabia também que se contaminara porque era a sua essência e seu fardo não ceder. "Resista", ela tentava recobrar a serenidade e a brandura no coração... O suco gástrico de cólera lhe cavava um buraco negro no corpo imaginário de dentro dela. Ela queria varar a epiderme, os músculos, a gordura e aquela coisa física e concreta demais, mole demais, para dar vazão aquele ser mítico que lhe rasgava as paredes do útero, do seio, do coração. O mesmo buraco que ela desejava retribuir aos fantoches que lhe cercavam. Só lhes eram caros até antes daquele ponto. Depois, por momentos intensos como séculos durava a cólera, mas curtos como um cair de tarde, queria mais que se ferrassem. "Bando de alheios". Tinha a sensação que um corte bem feito seria um alívio, não o fim. Mas sabia que era só sensação. Que esta dor ela ainda não experimentara e não poderia controlar ou reverter. E ela não achava essa história triste. Perturbadora, sim, ela diria. E satisfeita ficaria com qualquer comentário perfilado nesta palavra: perturbadora. Mas ela sempre soubera o porquê de tais contorsões de alma. Ninguém mais se doa em razão de uma causa? Ninguém? Então ela decidiu fazer greve de sangue. Greve de sangue só porque tinha muito, mas muito mais esperança do que medo ou desespero ou perturbação. Porque no fim, ela sabia que aquilo não era a toa. Então, pediu gentilmente que seu sangue coalhasse ao fim daquela cólera, que era arrebatadora, mas covarde: covarde e burra porque não sabia resistir a um pedido dócil - só contrariava mandatos. E a cólera se dissipou toda em coágulos. Por fim, aquela figura que tanto esperara se acalantou sob o seu olhar. Tinha uma agulha cravada fundamente no antebraço e um catéter. Um tubo de plástico a unia a ele, como um cordão umbilical, numa transfusão de sangue, de sentimentos, de pensamentos. Se misturavam lentamente no mesmo sorriso analgésico e trocavam o fluído vital. Dizem que ambos nunca mais sentiram dor.


segunda-feira, 7 de junho de 2010

Propriedade Privada


Chego. Tateio as paredes. As luzes se acedem me semicerrando as pálpebras, que reanimo com um esfregaço de dorso da mão. Que existência serei eu? Serei eu talhada no Sim, no Não ou no Talvez? Quem sabe um pouco de tudo? Quem sabe? É, talvez eu engane a todos, isso sim, porque também posso ser um vasto vazio contendo tudo. E por isso mesmo talvez eu seja nada. No sono, encontro o meu despertar profundo para a consciência. Fujo do Eu, avançando para cada vez mais dentro de mim. Falta muito a percorrer, muitos orvalhos me faltam beber. Existem tantas relvas nesta imensidão de alma sobre as quais ainda não deitei os cabelos... Na calmaria dos meus lagos lacrimosos tão açucarados quanto a saliva, vertem as vestes que sempre quisera destituir. Dos mares revoltos se aprisionam voluntariamente aqueles que jamais se puderam curar da vertigem sanguínea desta corrente oceânica. Lá estão meus barcos. Minhas fendas mágicas chamuscam ora ou outra, vibrando entre os balanços campestres pendurados em árvores robustas. Livres disparam todos os meus cavalos, flutuam despreocupadas as abelhas soníferas sob a tempestade de flores azuis, de um azul muito marinho e cintilante. Meus redemoinhos de perfumes para morder, meus líquidos mornos em cálices macios de lucidez. Borboletas e lagartas listradas se confluem em envólucros vibrantes. Há tantos raios maduros de sol, tantas frutas quentes e aveludadas. Lá estão as raízes tão óbvias de tantos túneis secretos. Ao entardecer o laranja desbota para a claridade das estrelas, aos pares de gêmeas cada um bordado em seu formato, que explodem gigantescas povoando a vida do painel lustrado. Meu emaranhado de hortaliças que se encharcam em barris de poções coloridas se aninham logo além do cobertor de girassóis. Não há cadeados, nem placas, nem cercas elétricas. Não há portas. Mas, não há vagas.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Despetalar

Rosa desgrenhada
Sou desfeita
Na eleita
Mas nunca elegível
Opium união
Rarefeita.
Intrometida
Na navalhada
Coalhada
Pela posse perfeita.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Sobre Michael Jackson


Este texto de minha autoria foi PUBLICADO no OBSERVATÓRIO DE IMPRENSA
Dedico este post a Michael Jackson em protesto a mídia tradicional, aos taxativos e espertinhos que vivem em seus escafandros, aos piadistas, a toda multidão desenfreada, cega surda, sem massa encefálica e que só fala asneira (como disse muito bem Charles Chaplin, cada ser individualmente pode ser incrível, mas a massa é um monstro sem cabeça).
Muito foi dito até hoje sobre a conduta monstruosa, bizarra, perniciosa deste ícone imortal. Alguns episódios do cantor são motivos de riso e condenação, de conspiração e pré-julgamentos. Confesso que, não apenas pela figura que abordo, mas por discordar da onda irresponsável que engole a opinião pública, promovida pelos veículos de comunicação, é que me permito analisar os fatos a minha moda, digna dos achismos de qualquer humano que tenha o mesmo direito de quem estampa o "poder de fogo." Não há como negar que não é prudente que alguém chegue muito perto de uma sacada com um bebê. Mas dá pra imaginar que a pressão pública para ver a criança o induziu a tal atitude desnecessária, que seria muito mais maculada e rechaçada por terceiros. Se Michael quisesse por seu filho em perigo não o teria feito em público, aquela certamente não seria a melhor oportunidade para piadas e brincadeiras de humor negro e mau-gosto envolvendo uma criança. Portanto, entendo que ele quis agradar ao seu público, sem maiores inconsequências e talvez até por pura falta de bom senso ou habilidade paterna. Convenhamos que ele mais se parecia com uma criança. Maldade? Muito improvável para um ser que escreve uma música como "Heal the World" enquanto apanhava desmedidamente do pai rígido durante a infância. Improvável igualmente a acusação de abuso sexual contra menores, certamente eu seria a primeira a repudiá-lo. VOCÊ FARIA UM ACORDO COM O RÉU EM QUALQUER QUANTIA FINANCEIRA DEPOIS DE SABER QUE O CARA MOLESTOU SEU FILHO? Qual dinheiro no mundo valeria a integridade sexual de uma criança? Porque a acusação de um garoto de 13 anos não o pôs atrás das grades? Porque teria sido ele absolvido? Porque as mães permitiam que suas crianças fôssem brincar com Michael, se ele passou a não ser mais muito normal depois de sua mudança de cor? Será que não tinham mais nada a sugar do astro pop? Será que Michael podería exigir indenização em igual valor para as pessoas civis que o acusaram? Será por isso talvez, e claro, por causa de seu padrão de vida claramente diferenciado, não se pode negar, que hoje o maior fenômeno da música pop morre em uma casa de aluguel, afundado em dívidas? Francamente, a imprensa mundial, a justiça e os responsáveis pelas crianças arranjaram uma ótima oportunidade de arrendar uma graninha do multi-milionário excêntrico, mas não lobo-mau. Se o pai de Michael o usava desde a infância, parece que ao invés de se livrar desta sina, ela se perpetuaria. Que traumas terão levado Michael a querer mudar de cor, se ele realmente o fez? Me parece que ele não tinha muita habilidade em persuasão, me parecia ser tímido fora dos palcos e um furacão dentro deles. Me parece que havia algum processo psicológico que o devastava e que seria um prato cheio para oportunistas. Será que o preconceito racial jamais o traumatizou? Será que o estereótipo do formato de um nariz de negro nunca foi motivo de piada ou até mesmo desconforto para as pessoas que sofrem com o escárnio tão discreto do povo branco? Será que, principalmente na América do Norte, o estigma de que pretos eram pretos e inferiores, pobres e não-dignos e que brancos sempre estampam melhor o rosto de uma nação desenvolvida, nunca existiu? Será que o cinema, a arte e a música nunca contribuíram para reforçar esta idéia? Imagine o que um produtor pode fazer com uma pessoa que ele vê como produto. Imagine quão mais fácil manipular que alguém foi conduzido à fama sob porrada. Creio que há uma grande hipocrisia no mundo todo, ao julgar um bobalhão em sua vida pessoal, mas um homem espetacular em sua arte. Ouvi hoje pela manhã no rádio, um comentarista destes que fecha os vidros do seu importado filmado e não tem sensibilidade alguma, talvez porque conviva apenas com seus próprios odores, dizer que "Michael frustra seus fãs mais uma vez", com relação ao show que faria no próximo mês, em Los Angeles, cuja lotação parece já estar esgotada. O homem não pode nem morrer em paz, que vão querer processá-lo depois de morto para que devolva o valor dos ingressos. Ele não teve consideração com os fãs, como sempre, e morreu assim, descaradamente. Sinceramente, o público aclama e o público mata, com o aval inescrupuloso da imprensa tapada. Mas muitas rádios estão se enchendo de grana e disponibilizando as canções dele em seus sites. Simbólica homenagem capitalista. "Espero que um dia ele encontre uma luz que o tire da “Terra do nunca” e o traga de volta à realidade dos homens", foi o que disse Adalberto Vittori, colunista da sessão musica do Paulínia News, e muito mais dizem por aí certos babacas. Se ele não conseguiu lidar com a pressão que a mídia impõe é porque a mídia está sem princípios. Sinceramente espero que ele permaneça na Terra do Nunca, pois a realidade dos homens é muito, mais muito sádica e ignorante. Eu, sem dúvida, preferia o Michael negro, com sua voz absurda, sua dança fantástica, suas causas humanitárias e só. Ele podería ser um Zé da Esquina. É bem verdade que ela já não parecia mais humano. E nós? O quanto temos sido, mesmo preservando nossos trejeitos? Mas nós o elegemos, abusamos de sua arte e o devolvemos a condenação sem ter chegado perto do homem. Compramos 750 milhões de discos, o maior número da história e acho eu que, se Deus ou o espírito Santo, ou Jesus, Alá, Buda, Maomé e seja lá quem for, falava por meio dele, já que a cultura atribui tal dom ao artista, "acho" que muita gente realmente não o escutou.



Heal The World
Michael Jackson
THERE'S A PLACE IN YOUR HEARTHá um lugar em seu coraçãoAND I KNOW THAT IT IS LOVEE eu sei que ele é o amorAND THIS PLACEE nesse lugarCOULD BE MUCH BRIGHTER THAN TOMORROWPode estar o mais brilhante amanhãAND IF YOU REALLY TRYE se você realmente tentarYOU'LL FIND THERE'S NO NEED TO CRYVocê irá descobrir que não precisa chorarIN THIS PLACENesse lugarYOU'LL FEEL THERE'S NO HURT OR SORROWVocê irá sentir, que não há mágoa ou tristezaTHERE ARE WAYS TO GET THEREHá caminhos para chegar láIF YOU CARE ENOUGH FOR THE LIVINGSe você se importa muito com a vidaMAKE A LITTLE SPACECrie um pequeno espaçoMAKE A BETTER PLACE ...Crie um lugar melhor( REFRÃO )HEAL THE WORLDCure o mundoMAKE IT A BETTER PLACEFaça dele um lugar melhorFOR YOU AND FOR MEPara você e para mimAND THE ENTIRE HUMAN RACEE toda a raça humanaTHERE ARE PEOPLE DYINGHá pessoas morrendoIF YOU CARE ENOUGH FOR THE LIVINGSe você se importa muito com a vidaMAKE A BETTER PLACEFaça um lugar melhorFOR YOU AND FOR MEPara você e para mimIF YOU WANT TO KNOW WHYSe você quer saber por queTHERE'S A LOVE THAT CANNOT LIEExiste um amor que não pode mentirLOVE IS STRONGO amor é forteIT ONLY CARES OF JOYFUL GIVINGE só cuida das dádivas alegresIF WE TRY WE SHALL SEESe nós tentarmos, nós veremosIN THIS BLISS WE CANNOT FEELNesta felicidade nós não sentimosFEAR OR DREADMedo ou receioWE STOP EXISTING AND START LIVINGParamos o existir e começamos a viverTHEN IT FEELS THAT ALWAYSEntão sentimos que sempreLOVE'S ENOUGH FOR US GROWINGBastante amor nos faz crescerSO MAKE A BETTER WORLDEntão faça um mundo melhorMAKE A BETTER WORLD ...Faça um mundo melhor( REPETE REFRÃO )AND THE DREAM WE WERE CONCEIVED IN WILL REVEAL A JOYFUL FACEE o sonho que nós concebemos ... eevelará um rosto alegreAND THE WORLD WE ONCE BELIEVED IN WILL SHINE AGAIN IN GRACEE o mundo que uma vez nós acreditamos irá brilhar de novo em graçaTHEN WHYEntão por que...DO WE KEEP STRANGLING LIFENós sufocamos a vida ?WOUND THIS EARTH CRUCIFY ITS SOULFerimos esta Terra, crucificamos esta almaTHOUGH IT'S PLAIN TO SEEMas é claro ver...THIS WORLD IS HEAVENLYQue este mundo é divinoBE GOD'S GLOWÉ a luz de DeusWE COULD FLY SO HIGHNós podemos voar tão altoLET OUR SPIRITS NEVER DIENunca deixar nossas almas morreremIN MY HEARTEm meu coraçãoI FEEL YOU ARE ALL MY BROTHERSEu sinto vocês todos meus irmãosCREATE A WORLD WITH NO FEARCrie um mundo sem medosTOGETHER WE CRY HAPPY TEARSJuntos nós choraremos lágrimas de alegriaSEE THE NATIONVeja a naçãoTURN THEIR SWORDS INTO PLOWSHARESTransforme suas espadas em aradosWE COULD REALLY GET THERENós poderíamos realmente conseguirIF YOU CARE ENOUGH FOR THE LIVINGSe você se importa muito com a vidaMAKE A LITTLE SPACECrie um pequeno espaçoMAKE A BETTER PLACE ...Crie um lugar melhor( REFRÃO 3 VEZES )HEAL THE WORLDCure o mundoMAKE IT A BETTER PLACEFaça dele um lugar melhorFOR YOU AND FOR MEPara você e para mimAND THE ENTIRE HUMAN RACEE toda a raça humanaTHERE ARE PEOPLE DYINGHá pessoas morrendoIF YOU CARE ENOUGH FOR THE LIVINGSe você se importa muito com a vidaMAKE A BETTER PLACEFaça um lugar melhorFOR YOU AND FOR MEPara você e para mimYOU AND FOR MEPara você e para mim.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Telepática



"É fato. Já fostes irremediavelmente tocado. Toque delicado, cuja textura espontâneamente pulsátil, ainda espasma e injeta sensações naquele músculo. Foi culpa da estrela que alguém lhe deu, para iluminar as suas trevas. Por que usaste-a como ferro em brasa na tua pele de boi? Concordo, não é uma prática nada indolor, choques são mais preferíveis. E ainda o que não sabes: que é tão ruim quanto o cheiro de pêlo e alma queimados que o corpo, nesta prática ignorante, expele... O cheiro, para mim, é de trancar a glote e arder as narinas.

Sendo o astro uma centelha, não se tencionava para a queima, e nem o teria feito, caso você mesmo não o colidisse contra a própria pele, tão comburente e já tão fatigada. O medo da invasão seleciona e liberta os gases mais constrangedores, encharcando a pele para a própria combustão.

Se não se sentisses boi, jamais teria comparado um carimbo de marcação em brasa a uma estrela. Jamais. E de fato não o era. Mas ainda sinto que o continuará usando para ocupar-se com a dor, ao passo que recebe o alívio superficial em curativos muito bem intencionados. Uma carcaça não pode proteger do abismo dos olhos. Não temer ser preso também é uma das facetas de ser livre, vasculhante do profundo, expansivo em vertical e horizontal de si mesmo. Tudo isso muito ao contrário, muito mais rebelde, do que construir uma cerca de proteção para ruminar o seguro e teimoso pasto, pelo qual nada se sente.
Há um toque. Percebe? Latejando, indelével, que te traz até aqui. Talvez guiado pelo mapa de linhas trêmulas e anônimas que ainda traças, deduzido por subestimar o imprevisível. Subestimar a si mesmo, digo-lhe sem ofensas, no fim, sem se dar conta de quão imprevisível pode ser um humano, assim, tão fantástico, que nunca imaginarias tu, acabou por te dar uma estrela... Quem ousará desvendar a arte de fertilização das estrelas?"

terça-feira, 31 de março de 2009

Crise Mundial - NETO (diretor de criação e sócio da Bullet).

"Vou fazer um slideshow para você. Está preparado? É comum, você já viu essas imagens antes. Quem sabe até já se acostumou com elas. Começa com aquelas crianças famintas da África. Aquelas com os ossos visíveis por baixo da pele. Aquelas com moscas nos olhos. Os slides se sucedem. Êxodos de populações inteiras. Gente faminta. Gente pobre. Gente sem futuro. Durante décadas, vimos essas imagens. No Discovery Channel, na National Geographic, nos concursos de foto. Algumas viraram até objetos de arte, em livros de fotógrafos renomados. São imagens de miséria que comovem. São imagens que criam plataformas de governo. Criam ONGs. Criam entidades. Criam movimentos sociais.
A miséria pelo mundo, seja em Uganda ou no Ceará, na Índia ou em Bogotá sensibiliza. Ano após ano, discutiu-se o que fazer. Anos de pressão para sensibilizar uma infinidade de líderes que se sucederam nas nações mais poderosas do planeta. Dizem que 40 bilhões de dólares seriam necessários para resolver o problema da fome no mundo. Resolver, capicce? Extinguir. Não haveria mais nenhum menininho terrivelmente magro e sem futuro, em nenhum canto do planeta. Não sei como calcularam este número. Mas digamos que esteja subestimado. Digamos que seja o dobro. Ou o triplo. Com 120 bilhões o mundo seria um lugar mais justo.
Não houve passeata, discurso político ou filosófico ou foto que sensibilizasse. Não houve documentário, ONG, lobby ou pressão que resolvesse. Mas em uma semana, os mesmos líderes, as mesmas potências, tiraram da cartola 2.2 trilhões de dólares (700 bi nos EUA, 1.5 tri na Europa) para salvar da fome quem já estava de barriga cheia. Bancos e investidores."

Como uma pessoa comentou, é uma pena que esse texto só esteja em blogs e não na mídia de massa, essa mesma que sabe muito bem dar tapa e afagar.

Imagem1 retirada de

quarta-feira, 25 de março de 2009

Conto A mangueira e O balde.



Era uma vez, assim mesmo bem clichê, um balde. Um balde velho e comum, só que boa-pinta, bem conservado, vermelho cereja. Dividia sua morada com alguns utensílios domésticos rústicos, destes que usamos no dia a dia, dentre eles uma pomposa mangueira, que se não fôsse pelas raladas no cimento, seria novinha novinha. A mangueira era vaidosa e impertinente, sempre empenhada em gotejar suas virtudes nos outros companheiros de lavanderia. "Eu sou moderna", dizia ela satisfeita, moldando para si um pilar de ostentação em tom superior, ao ser retorcida depois do uso. "Eu sou prática e eficiente". O balde sabia que as investidas eram despejadas contra ele, especificamente. Pois fora substituído pela mangueira na maioria das ocasiões. O balde simplesmente não concordava com a troca, pois sabia que era muito mais comedido na gastação de água. A água para ele era um elemento de importância indefinível, nada mais alegrava-o do que tê-la contida em seu interior, fresquinha. "Pois a água passa por dentro de você ligeira, dona mangueira. Deve ser tão incômodo que ela quer sair logo num jato..." A mangueira corou, irritadíssima! "E se fica presa, quase lhe rasga o bocal para escapolir...". O balde, invencível, ainda deixou escapar uma risadinha. E pronto, os utensílios puseram-se a rir, todos num uníssono. "Você é quase velho, quase inútil e como se nota, no duplo sentido, tem a boca larga!". Logo, o público metálico que assistia ao duelo verbal, engoliu saliva com a jateada no colega, um fora de furar balde! "Por falar em duplo sentido, tudo em você entra por um lado e sai por outro. Tem apenas uma boca, assim como eu, mas bem pequena que é para falar pouco. Além do mais você não tem fundo.". A mangueira sentiu sua pressão aumentar. "Você tem fundo porque é limitado. Pelo contrário eu sou muito leve e fácil de carregar. Também forneço água em abundância", a mangueira chegava a respingar de satisfação. O balde, já impaciente, transbordou "Porque além de magriça, você vaza. E depois, quando funciona causa desperdício. Quando faz dobras, atrasa o trabalho. Eu não, forneço na medida exata, não mais que o suficiente". "Todos gostam mesmo é de chutar você", ria-se a mangueira, vaidosa. O balde incansável respondia à altura dos impropérios "Eu tenho várias utilidades, sou o socorro se há goteiras, carrego objetos e produtos de limpeza, guardo os panos de molho... Você serve mais pra que? Pra amarrar o cachorro?" E a conversa ia longe, permeada de insultos, como se um filtrasse as impurezas do outro. Então, a mangueira quase explodindo com a meia dúzia de insultos avolumando, escorrega de seu suporte e desemboca dentro do balde, numa queda deselegante. O balde fica sem graça, contrangido ao extremo, se sente mau. Ambos vencidos, a mangueira se põe a chorar. O balde tenta conter a aguaceira, a outra suspira e borbulha, antes de se mergulhar totalmente. E a conversa só acabou porque um submerso e o outro contendo, se contorciam juntos, nas sensações inéditas que um provocava no outro, no prazer da água.
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sábado, 21 de março de 2009

Pérolas Manoélicas

Adoro os diálogos com minha filha Manoela, de 3 anos. São nossos. Os momentos, o prazer e a reflexão que trazem. E por me fazerem um bem tão exato, por ela ter a perícia de me derreter com o simples suspiro de seus pulmões, é que compartilho alguns momentos indeléveis destes, aqui. Se todos os pais prestassem atenção nestes momentos, que passam e deixam saudade, porque muitas vezes nos recordamos do gosto do sorriso escapolido, mas não exatamente das palavras, o mundo teria mais lugar para a sabedoria plural. Por isso o registro, que agora virou mania, pois sempre dou um jeito de anotar ou gravar estas pérolas Manoélicas, só para reforçar o tanto que me comprazem! Lá vão:





Avistando a Igreja São Domingos Sávio, que está sempre fechada, Manu que tem paixão por igrejas, pede para entrar. Contornando a igreja, avistamos as portas fechadas. Vejo a decepção já arqueando suas delicadas sobrancelhas, então, com desprezo, ela me lança:

"Ah, que coisa é essa? A gente só queria entrar. A gente não tá aqui fora fazendo malandragem, né mamãe?"

Então sugeri dar a volta e entrar pela lateral, que na verdade é para a pastoral e secretaria:

"É! Vamos dar a volta... (pensativa, dá de ombros) Jesus não quer abrir..."

Então, achamos uma entrada e a recepção vazia. Corremos para a porta lateral e adentramos a igreja vazia.

"Mamãe, hoje o padre não vai dar aula?"

Eu já me mijando de rir, respondi que não.

"Então, eu posso tocar um pouco de bateria?"

Dia desses, depois de dar-lhe uma bronca:
"É muito legal isso que você dizeu pra mim."
O que?
"Sobre a minha educação. Há há há."

Brincando com uma abelha:

Manu, se a abelha fôsse menina, ela seria...
"Rainha."

E se fôsse menino?
"Reeeei!Que nem eu, quando eu era pequena eu era macho. Depois eu cresci e virei menina..."

Sobre o Pasquale Cipro Neto, na TV Cultura:
"Mamãe, este cara é um chato."

"Sabe, mamãe, quem fazeu o Sítio do Pica-Pau Amarelo?
(... neste momento me restou sorrir de satisfação e esperar a resposta)
Foi o Homem Lobato!"

Manu, onde moram os índios?
"Os índios moram na América do Suco, a América do Planeta, na terra do Brasil. E se escondem atrás da Mata."

Manu, que é um Lemuri?
"O Zooboo."

E onde ele mora?
"Na terra de Madagascar."

Sobre uma borboleta que avistamos no caminho da escola:
"Olha, mamãe, a Josi!"

Que Josi, filha?
"A Butterfly, ué!"

Boas Vindas




Dedico um post a apresentar este, que é nada menos que Mahiri Manoel Do (batizado por mim e pela Manu), o mais novo membro da nossa família. Ele tem apenas 1 mês e é um companheirinho muito divertido. Não, senhores ou senhoras de nariz torcido, este não é um rato, apesar do biotipo. Mas é óbvio notar que pertence à família dos roedores. Trata-se de um fofíssimo Esquilo da Mongólia, também conhecido como Gerbil. Estes animais são oriundos de desertos e semidesertos da Mongólia. Também podem ser encontrados no Nordeste da China, no norte da Ásia Central e África, Noroeste da Turquia e da Índia, segundo a Gerbil Brasil Home Page*.
Gostam de comer amendoins, milho seco, rações (inclusive a do gato), cenoura, vegetais, maça, banana, melão, etc. E também saciam a sede com pouca água. Tem hábitos noturnos como, por exemplo, roer papelões, cerragens que servem para forrar seu lar e os adorados túneis de papel higiênico. Sua pelagem é bege ou dourada e os olhos vermelhos, mas a espécie apresenta uma diversidade curiosa, tanto na pelagem que pode ser preta, branca, marron, prata, cinza ou mista e nos olhos, vermelhos ou pretos. Mahiri é ainda bastante agitado, pois convive com uma doce criança, incrivelmente curiosa e ativa, de 3 anos, chamada Manoela, que adora carregá-lo entre as mãos em concha, prá lá e prá cá. Espera-se que ele atinja 15cm de comprimento e viva mais do que a média e perto daquele que teve maior longevidade, o que corresponde a expectativa de 3 a 7 anos.
Estes pequenos animais devem ficar longe da água, como me informou gravemente o atendente da COBASI, pois a pneumonia é uma sorrateira ameça à saúde dos simpáticos bichinhos. Portanto, eles não devem tomar banho "molhado" (embora Mahiri tenha sido surrupiado de sua casinha e repetidamente submerso e enxaguado em água abundante, pela sua dona oficial, na pia do banheiro, com uma semana de adoção), para o banho existe um método à seco. Se ocorrer um acidente, coloque-o entre as mãos e, de longe, direcione o ar morno de um secador de cabelos. Pelo menos funcionou aqui, o nosso amiguinho passa bem. Que ele traga muitas alegrias e nós a ele também. =]

segunda-feira, 16 de março de 2009

Provérbio Árabe

"Quem não entende um olhar,
muito menos entenderá uma
longa explicação."

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Cursos grátis

Farei aqui uma lista de cursos grátis que acho interessantes. Não estou fazendo propaganda, apenas creio que estas informações sejam extremamente utéis a quem quer aprender.

Vamos lá!

Cursos em tecnologia online, grátis com certificado intel.


http://www.nextgenerationcenter.com/v3/web/curso.php

Curso de Alemão com áudio MP3 e apostilas em pdf. Dá para baixar o áudio no celular. Nível iniciante ao avançado. http://www.dw-world.de/dw/0,,2594,00.html

Direitos Humanos e Mediação de Conflitos, Produção Científica das Mulheres Negras, etc. Presidência da República - certificado.http://cursos.educacaoadistancia.org.br/

Cursos sobre Diversidade/ Edificação Sustentável/ Direitos Humanos

Curso de Francês do MEC - língua e cultura http://francoclic.mec.gov.br/

Várias línguas online grátis. Beem bacaninha este site! Recomendo. http://www.livemocha.com/

Sebrae - Educação http://www.ead.sebrae.com.br/

Aqui há uma lista dos cursos oferecidos, muitos de graduação, extensão, livres, pós, pagos e gratuitos. Também menciona se há certificação ou mesmo reconhecimento. http://www2.abed.org.br/d_cursos.asp

Por fim, este site traz universidades que promovem cursos gratuitos, mas estão em inglês. Vale a pena fuçar.

http://education-portal.com/articles/Universities_with_the_Best_Free_Online_Courses.html

Assim que descobrir outras oportunidades, estarão disponíveis aqui! Bons estudos!