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sexta-feira, 12 de julho de 2013

Superficialidade das abordagens midiáticas: prazer e prostituição



Lola Benvenutti é o nome de guerra de uma moça bonita do interior, de 21 anos, recém-formada em Letras por uma universidade pública, que virou notícia após revelar que entrou no universo da prostituição por puro prazer e está aproveitando a oportunidade para a promoção desta atividade financeira. Ela alimenta um blog, já está sendo absorvida pelo raso buraco das celebridades produzidas “por babados”, e têm disponíveis algumas entrevistas na net, caso deseje. Qualquer menção promove e, embora não seja este o intuito, me parece inevitável.

Prostituta vinda de família tradicional do interior, se assumindo publicamente sem o menor problema, apesar do preconceito social predominante, creio que seja um choque na rigidez de qualquer criação militar. Coragem? Vamos por partes.

Acho engraçado que ela tenha surgido, assim, no frescor das tramas da novela da rede Globo, que mandavam suas deslumbrantes celebridades sofrerem como garotas de programa bem lá longe, na Turquia.

Mergulhando um pouco mais pra longe do superficial, “Nome de guerra” é uma identidade que as prostitutas adotam, geralmente, para preservar sua autoimagem de uma relação estritamente comercial, para retirar o Eu das suas práticas, entrar em sua personagem que vai literalmente para um combate e preservar uma parcela de anonimato. Creio eu que este combate deve ser travado contra vários aspectos, dentre eles: contra todas as possíveis ameaças, das mais variadas naturezas, que possam estar contidas na figura de um novo cliente desconhecido; contra os estímulos que o seu corpo receberá por meio dos seus órgãos dos sentidos (tato, paladar, olfato, audição) e que não sabe se serão processados em seu cérebro como prazerosos, dolorosos ou repugnantes... Imagino que seja necessário realmente criar uma ou várias outras identidades, não só por causa da vida em sociedade, mas porque algumas práticas devem exigir um alterego. Lola não é o nome verdadeiro dela. Sendo assim, não existe coerência entre seu discurso aparentemente forte e convicto, e a confecção de um disfarce de identidade, ela como estudante de Letras talvez pudesse ter sacado isso...

Li o blog de Lola até onde aguentei, por considerar sua abordagem cansativa, sem estética e sem ritmo. Qualidade literária que dizem ter? Nota zero. Parece um jogral (em duas concepções) escrito em lírica medieval (dá pra entender?), contando sistematicamente alguns de seus atendimentos.

Creio que realmente ela extraia alguns tipos de prazeres da profissão que faz questão de exibir, sem dúvida, tanto financeiros quanto egoicos, e ocasionalmente físicos. Acho que dentro do que se propôs a fazer, tem um bom marketing. Não será a primeira, nem a última, nem Joana D´Arc e nem um bicho de sete cabeças... Mas a coisa é que a exaltação infiltrada em seus discursos me parece muito relativa e não absoluta, como quer fazer parecer. A menina Lola fala como se tivesse o homem que bem entendesse dentro de suas preferências, pagando pra ficar com ela, como se tudo fosse uma linda história erótica de contos de fadas. 

Em uma de suas entrevistas, passou despercebido pela maioria um detalhe sórdido que reproduzo aqui tendo lido no site do G1:

"O interesse precoce por sexo começou com uma vontade íntima de deixar de ser virgem, o que considerava ser um ‘fardo’. “Desde os 11 anos queria me livrar desse fardo, mas perdi a virgindade com 13 anos e a primeira vez foi péssima, com um homem de 30 anos que conheci pela internet”, relembrou."

A preocupação dela aos 11 anos era perder a virgindade, enquanto a preocupação da maioria das crianças dessa idade provavelmente é de como curar um joelho ralado. Quais serão os estímulos para que sua atenção se voltasse para o sexo, o erotismo, para este tipo de informação? Será que cabe no universo infantil saudável um assunto que traz tantos, mas tantos pormenores, difíceis de conduzir até mesmo para os adultos? A curiosidade natural e fase fálica teriam sofrido alguma interferência suficientemente forte demais? Será que aos 13, teria ela aparelhagem para avaliar uma relação com alguém de 30 anos? Pois é parte de  outra realidade e estrutura corporal (anatômica), mental, e até mesmo existe a competência civil na seara dos Direitos. A legislação prevê alguém desta idade como pessoa relativamente incapaz para o ato civil, e não apenas por acaso, nem por mera convenção, mas porque pressupõe-se a falta de critérios ou experiências para as demandas mais complexas de estados de deveres e direitos como cidadãos. O ECA considera um ser humano como criança até os 12 anos e adolescente até os 18. Creio que estes dispositivos foram criados com base em uma série de questões biológicas, psicológicas, etc. 

Lola, goste ou não, saiba ou não, tenha consentido ou não, tenha sido seduzida ou não, talvez seja vítima da própria vulnerabilidade, pois sofreu sim uma violação. É sabido que a fase fálica de uma criança não precisa nem deve ser reprimida ou estimulada: canalizar a energia para práticas que serão benéficas a sua integridade total é uma boa pedida. É perceptível a diferença morfológica de uma pessoa adulta para uma criança, a diferença anatômica da etapa de desenvolvimento. O rapaz de 30 anos cometeu contra ela um crime, além do que eu o considero pedófilo.

Ficou impresso no discurso a convicção de que ela deteve/detém completo controle sobre todas as situações. A moça expõe sua necessidade de ser precoce, de estar à frente do seu tempo, de receber aprovação, quando na verdade é uma criança amordaçada. E o povo todo acha que ela faz apenas por prazer... Se ela tem coragem? De fato, sem dúvida.

Toda essa reação espalhafatosa não é incomum, pode caracterizar um dos vários processos desencadeados muitas vezes por vítimas de abuso sexual, é ter o direito de maltratar a própria condição feminina, já que alguém já fez isso sem considerar seu lado humano. Algumas pessoas se anulam completamente e outras ficam obcecadas. Seria isso saudável?

Vejam bem, não estou condenando o fato de ela obter prazer, nem estou julgando-a, nem sendo moralista com relação ao sexo. Embora eu ache que a prática perpetua a objetização da mulher na sociedade, assim como a mídia faz, a religião, e outros poderes, não sou hipócrita de negar que estas mulheres permeiam as fantasias masculinas e só existem porque existem muitos adeptos que gostam, e gostam muito.

Lamento por este “pequeno detalhe”, já que o mote do sucesso das abordagens é “fazer por prazer”, não ter sido observado ainda por nenhuma mídia. Concluo que a curiosidade infantil é inata, que somos seres também feitos para a experiência sexual, mas alguém usar isso para corromper um menor que não tem aparelhagem para saber o que envolve uma relação sexual, que sequer tem conhecimento sobre o próprio corpo, é demais. Como disse anteriormente: ela tem tantas aventuras deliciosas mesmo? Será que não é reflexo de certa vulnerabilidade e tem consciência do que diz? 

Não tem medo ou nojo de comportamentos, secreções, doenças? Afinal, ela presta um serviço. Para a mídia esta é minha crítica. Quando ela fala da carreira, embora ela não precise de dinheiro, eu penso que o exercício da profissão de professor realmente deveria ser mais reconhecido. Receber bem para transar talvez soe mais atraente mesmo do que pagar para lecionar. Muitos professores que conheço estão ali firmes e fortes tentando sustentar o ideal de um coletivo e mudar a realidade, ao invés de marginalizarem suas práticas. Isso pra mim é coragem genuína.

Acerca das opiniões populares, vejo-a como um pedaço de carne fresca sendo jogado num rio de piranhas...

[Foto: Júlia Roberts como Vivian Ward, no filme "Uma linda mulher". Abordagens um tanto contrastantes]

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